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DESDE GALIZA
Adriana Lisboa
Poeminha em direcção à Adriana (Ondjaki)
jardins e flores
com odor a futuros:
os filhos, as árvores
os livros.
outrora eu era raiz,
hoje pássaro
amanha passado
em flor.
como um retorno. só.
Um amigo me escreveu estes versos. Um amigo me deu o espelho destes versos. Todo espelho fala e falha, todo espelho acerta e mente, porque inverte, porque ameaça e embaça, mas todo espelho cria: o mesmo, ao contrário. E quem saberá quantas promessas espreitam nas sombras do espelho, ou quantos monstros, em seus quartos trancados.
O meu amigo poeta falou de flores com odor a futuro. Falou de passado em flor. Sobre um e outro - duas ficções enraizadas em mim (em nós) - levanta vôo este breve pássaro de hoje. Para Paul Valéry, é preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma. Referia-se ele lá de longe ao pássaro que o meu amigo adivinhou em seu poema? E a pluma, será essa que cai, sem direção ou ritmo, sem tempo? Será também essa que reencarna na esferográfica com que tento este texto? E o que tento, o que sustento, será que cai ou será que voa?
Faz cinco dias que cheguei a Santiago de Compostela com um compromisso: o encontro. Disse Roland Barthes que viajar é encontrar, voyager, c'est rencontrer, e que portanto o único léxico que realmente importa, numa viagem, é o do rendez-vous - o do encontro. Pouco importa onde ficam os correios ou a farmácia: importa, sim, que se escolhe dizer obrigada, gracias ou gracinha.
O poema do meu amigo remete-me àquilo que vim encontrar: outrora eu era raiz. E portanto está em mim, a raiz, aquilo que fui. Ainda que no anonimato da terra, ainda que no coração quente e escuro onde as coisas apenas se formulam, sem pressa, a mera idéia da folha e do fruto. Na raiz de outrora estão as minhas impressões e as minhas impressões digitais. É dela que broto e é ela que às vezes me descubro roendo, em busca de algum nó ou gosto secreto, em busca de alguma outra madeira. Mais nobre? Simplesmente diferente? Mais fácil, talvez? Mas como é possível fechar os olhos, os braços e as asas às raízes, mesmo quando estas transportam incêncios?
O poema do meu amigo diz também dos filhos: que somos, que temos, no sentido para lá do espaço físico. Dos filhos que encarnamos ao pensar em outras ficções tão reais como a de uma pátria mãe, como a de uma língua materna. Afiliamo-nos. Mesmo se nos desgarramos, mesmo se achamos que a inversão da imagem no espelho é torpe e traiçoeira. Mesmo que os quartos dentro do aço do espelho perguntem: trouxeste a chave? Mesmo que as nossas pátrias às vezes nos queiram apátridas (mas e por que não?). Mesmo que as nossas línguas não saibam endurecer, e às vezes sofram de excesso de ternura.
O poema também fala, é claro, de livros. Estes que erguemos no papel frágil, volátil, facilmente inflamável, estes que ficam até que já não ficam, até que se acabam, finalmente mortais, como nós. Estes que esculpimos, que acertamos ou mentimos com um material mais caro e delicado do que as tintas, do que os mármores: a palavra, que nos justifica aqui. Esta mesma que eu persigo agora, palavra-uroboro incapaz de encontrar a própria cauda, incapaz de saber onde começa e onde termina. Palavra que já me compromete várias linhas para tentar me colocar diante do que falar, escrever, inventar e inverter nesta língua-espelho. Em busca de uma outra bela ficção - a da unidade.
Outrora eu era raiz, hoje pássaro, amanhã passado em flor. Como um retorno. Só. Assim termina o poema do meu amigo. E no entanto retornar não é ir ou vir de novo, porque o mesmo já não o é um segundo depois. O retorno, o encontro que tentamos encenar aqui é, portanto, volta, mas também revolta, e é também o inevitavelmente diferente, que vem com a força das marés. Por fim, é estar só, no coração mesmo do encontro - aquele léxico de que falou Roland Barthes também circunscreve o campo semântico da solidão.
Ainda que este seja um encontro de lusitanistas, faço um pequeno desvio para buscar a justeza de um termo japonês capaz de justificar o que afinal de contas fazemos aqui, pássaros, raízes, asas, filhos, livros vindos da própria Galiza, ou de Portugal, ou de Angola e do Timor e do Brasil: kotadama. A força miraculosa das palavras.
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