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( romance, 2010 )

Um bom romance é aquele que o leitor, vencida a última página, não consegue, em poucas palavras, explicar “qual o enredo” ou “sobre o que trata o livro”, tal a variedade de possibilidades oferecidas pelo autor. Este é o caso de Azul-corvo, quinta narrativa longa de Adriana Lisboa, sem dúvida uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira contemporânea.
Um leitor pode compreender Azul-corvo como uma história de amor e devoção. O ex-guerrilheiro Fernando foge do Brasil durante a ditadura militar. Em Londres, onde trabalha num pub, conhece Suzana, uma brasileira radicada nos Estados Unidos. Eles se apaixonam e Fernando resolve morar com ela no Novo México. Após seis anos, Suzana rompe a relação e Fernando muda-se para o Colorado, onde, acostumado à solidão, vive como segurança da biblioteca pública central de Denver, para sempre dedicado à ex-mulher.
Outro leitor, no entanto, pode entender que esse é apenas o verniz que encobre uma corajosa reflexão sobre o passado recente do Brasil, aliás, estranhamente desprezado por nossos escritores. Fernando, nascido em Goiânia, filho de uma costureira viúva, larga a universidade e se engaja no PCdoB. Aprende técnicas de guerrilha na China e no início dos anos setenta encontra-se no meio da floresta amazônica. Anos depois, Fernando deixa o Brasil, o remorso e a culpa em seus calcanhares.
Outro ainda pode concluir que esta é a história de Evangelina, fruto da relação extemporânea de Suzana com um americano, já que é ela, aos 22 anos, quem conduz a narrativa. Vanja, embora nascida no Novo México, sente-se como tendo vindo ao mundo aos dois anos, em Copacabana, onde viveu até os 12, quando a mãe, sabendo-se gravemente doente, oferece-lhe parte de suas lembranças. Após a morte de Suzana, Vanja viaja para os Estados Unidos para, junto com Fernando, empreender uma viagem em busca do pai.
Azul-corvo é tudo isso. E muito mais.
Porque à medida que constrói sua memória pessoal, Vanja toma consciência do passado de Fernando, que é parte do passado nebuloso do próprio país que um dia foi seu e que talvez não o seja nunca mais. Quer dizer, no momento mesmo em que ela se apropria de sua história, esta passa a não ter mais importância – porque Azul-corvo também é, e fundamentalmente, um romance sobre pertencimento.
Rigorosamente todas as personagens de Azul-corvo estão em trânsito: o avô de Vanja, geólogo, radicado no Texas; a mãe, fugindo para o Novo México, voltando para o Brasil; Fernando, exilando-se no Colorado; as amigas da mãe, June, meio inglesa, meio índia, e Isabel, porto-riquenha; a avó americana de Vanja, Florence, que deixou os Estados Unidos pelo México, onde se casou, e depois pela Costa do Marfim; e Carlos, o simpático salvadorenho, cuja família permanece ilegalmente nos Estados Unidos até se mudar para a Flórida.
Todos, sem exceção, se tornam inesquecíveis, magnificamente pintados pela escrita sóbria, elegante e segura que caracteriza e identifica Adriana Lisboa.
Por Luiz Ruffato
Luiz Ruffato é escritor, autor de Eles eram muitos cavalos.
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