| |


Americanas.com
Livraria Cultura
Livraria Saraiva
Livraria Sodiler
Livraria Siciliano
Submarino
|

 ( minicontos, 2004 )

JAZZ
Ela tira os óculos e guarda uma mecha de cabelo atrás da orelha. Faz frio no estúdio. Pensa vagamente no sonho que teve à noite enquanto canta my toes just touched the water.
A melodia desliza pela sala e ele tem plena consciência de que perdeu o controle do tempo. A música de Norah Jones vai terminar, a noite vai terminar, na hora de dormir ele vai apagar o lustre e conseqüentemente seu reflexo no espelho vai morrer também.
O pai dela escuta música na sala (Norah Jones de novo, meu deus) e parece que não quer conversa. Ela pega uma bala na gaveta e volta para o quarto. Ao passar pelo corredor vê, no teto, uma lagartixa.
Suas pequeninas patas esverdeadas, quase translúcidas, grudam-se ao teto enquanto ela espreita um mosquito. Mas o inseto é mais rápido e sai voando pela janela aberta.
Lá fora, sob suas asas, a noite é translúcida, esverdeada, fria e doce. Parece uma melodia de jazz.
|
|
|
|
|
 |
|
GEOGRAFIA
Na chapada tudo é grande. O céu só termina quando o seu olhar desiste, ou quando a miopia te vence. Caminhe o dia inteiro e confira no mapa: você só cobriu o espaço que basta ao seu cansaço. A chapada desafia os músculos, a garrafa d'água, a máquina fotográfica. O ar é demais e dói, ressecando seu fôlego neste junho marrom. Mas água do rio Preto é preta e transparente e seus pés não encontram fundo para o medo do mergulho. Sua voz não encontra timbre para o grito. Ao sublime inquieto do céu, seu pensamento é supérfluo. Mesmo sua vida é supérflua. O céu do cerrado desdenha das testemunhas e o sol se põe, metamorfose, catarse azul e amarela nas araras-canindé. Alguém disse que as montanhas aqui são para dentro. Você caiu na barriga do mundo, onde se desfaz tão rapidamente quanto qualquer alimento. A pele queima, a noite é fria, e as estrelas pulsam toda a galáxia insone enquanto você morre mais uma vez.
Na chapada tudo é pequeno. Em meio metro de rio os peixes beliscam seus pés e as bolhas dentro d'água duram um segundo. A correnteza espelha trezentos minúsculos sóis. Trezentos milhões. Cor-de-rosa pela manhã, ao meio-dia as mimosas já são brancas. A poeira tem asas e agarra seu cabelo e nenhum branco das suas roupas dura mais do que cinco minutos. Mínimos vales lunares feitos de pedra e areia cabem entre dois passos. Na chapada você tem o tamanho dos seus olhos e da sua irrisória capacidade de assombro. Na chapada aquilo que te assombra é também o milagroso espaço de uma flor. De um inseto. Do animal que é só pegada e vestígio. No dolorido músculo da perna você encontra sua alma, que palpita, que inverte o cerco, que nasce mais uma vez.
|
 |
|
|
|
GÊNESE
para Sérgio Sansão
No Quênia, um deus canta e toca tambores. Suas mãos estão sujas de argila enquanto ele molda um vaso. Já não é um vaso, é uma moringa. Já não é uma moringa, é uma escultura.
Já não é uma escultura, é uma mulher. Pensa o deus: moldo uma mulher, depois moldo um homem. A música do Quênia canta em argila de todas as cores o corpo da mulher, branca, e do homem, negro. O deus toca tambores. O homem e a mulher enchem seus pulmões novos com o ar seco. No sétimo dia, em vez de descansar, o deus dança sobre a corda bamba do horizonte, em companhia de suas criaturas, ciente de que por um segundo o mundo é infinitamente bom.
|
|
|
MERGULHO
Quando a rã vislumbrou o lago, esqueceu-se das florestas de pinheiros. Esqueceu-se das ilhas e montanhas. Esqueceu-se da neblina e das flores das cerejeiras. O lago espelhava o mundo e multiplicava o desejo da rã num abismo invisível.
A rã duvidou. É possível saltar? Saberei eu saltar? O que é que eu sou, afinal, diante do lago? E a rã sentiu-se água. Sentiu-se onda e sentiu-se superfície imóvel. Seu mergulho antecipado pensou três círculos concêntricos afagando o lago. E o universo inteiro a estremecer.
A rã esperou na margem pelo convite. E o lago, no escuro, não dormia, guardava sombras. Aguardava o salto? No segredo do gesto, pensaram ambos: talvez a vida. Talvez a morte. Talvez apenas um breve rumor d'água.
|
 |
|
|
|
|
|