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 ( antologia de literatura brasileira, 2005 ) organizado por Beatriz Resende / fotos de Bruno Veiga

Instantâneos do Rio capturados em prosa, poesia e polaróide
A Casa da Palavra apresenta Rio Literário, um diálogo entre as imagens da cidade inspiradora e textos de autores - nascidos aqui ou adotados - por ela inspirados.
A seleção e apresentação ficou a cargo da professora Beatriz Resende, autora, entre outros livros, de Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Ela optou por um corte mais contemporâneo e os textos escolhidos começam, cronologicamente, em Vinícius de Moraes e Clarice Lispector, passam por Rubem Fonseca, Sonia Coutinho, Silviano Santiago e alcançam a produção recente de Chico Buarque e dos novíssimos João Paulo Cuenca e Cecília Giannetti. A seguir, trecho da apresentação de Beatriz Resende.
Breve roteiro para o leitor se perder na cidade do Rio de Janeiro
"Guias de cidades são ferramentas de rara utilidade. Conduzem-nos por espaços desconhecidos, nos ensinam onde encontrar o que buscamos, traçam roteiros precisos.
Finda a viagem, nos servem de recordação, permitem que nos lembremos dos espaços visitados, recordando nomes e endereços.
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Este guia literário do Rio de Janeiro quer ter, no entanto, serventia bem diversa de tais instrumentos de navegação. As escritas da cidade que aqui se apresentam pretendem levar o leitor antes a perder-se pela cidade do que a encontrar trajetos seguros. Nos textos e nas imagens, caminhos já percorridos por outros passos, cenários vistos por outros olhos, querem provocar o leitor a construir sua própria cidade, viver, quem sabe, sua própria paixão. Como se verá em seguida, o Rio de Janeiro traçado pela escrita dos autores, cariocas ou não, apresenta-se inevitavelmente como espaço percebido numa relação amorosa. Seja nos momentos em que surge como sedutora e envolvente, seja quando se ergue diante dos olhos do artista como traidora, a rejeitar aquele que se ocupa em percorrê-la, a cidade provoca o criador.
A organização deste guia seguiu a convicção de que a melhor maneira de conhecermos ou reconhecermos uma cidade é descobrir a cidade real que existe dentro da cidade imaginária. À visibilidade de uma cidade chega-se melhor pelos caminhos da cidade invisível, aquela construída na clausura do artista à sua mesa, arquiteto do papel movido por recordações e desejos.
[...]
É com o resgate da cidade dos poetas, dos contistas, dos romancistas que queremos apresentar ao fruidor deste nosso guia a cidade desejável, sonhada e lembrada. Cidade sensual, companheira, solidária. Cidade heróica a lutar pela sobrevivência. Cidade valente mesmo se assustada. Cidade trágica combatendo a fatalidade. Cidade, mais do que qualquer outra, capaz de rir de si mesma.
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Os textos aqui apresentados são poemas, contos ou trechos de romances. Intencionalmente foi cometida aqui uma grande heresia: apresentar um guia literário do Rio de Janeiro que não recorresse à expressão literária mais intimamente ligada à nossa cidade, a crônica. É que a crônica, mesmo quando fantasiosa, traz fortes marcas do espaço real, trava com a cidade uma relação concreta e combativa. Pela crônica faz-se a história de uma cidade, história generosa porque capaz de incluir nela a história dos vencidos, dos perdedores, dos marginalizados. Desta vez, porém, optamos por transitar por outros gêneros, apresentando a cidade que invade o imaginário de contos, romances e poemas. Deixou-se de fora a crônica e, ao lado dela, a precisão da máquina fotográfica digital. Nos detalhes da cidade capturados pela máquina polaroid e nos textos escolhidos buscou-se chegar, pelas imagens da cidade real, contemporânea, à cidade dos desejos de todos que pelo Rio passam.
Na audácia do recorte proposto, fizemos ainda outra escolha: o Rio que aqui aparece é o de nossos tempos. De todas as cidades brasileiras, sem dúvida alguma, o Rio de Janeiro é a que mais freqüenta a nossa literatura. Ex-capital, aquela que sendo colônia foi capital do reino, para cá vieram poetas e narradores de todo o país, aqui nasceu Machado de Assis, nosso escritor maior, e outros mais. É bem conhecida a literatura da cidade imperial e a da Primeira República. Como disse Vinícius de Moraes em um poema, "Houve tempo em que a cidade tinha pêlo na axila", "tempo em que um morro era apenas um morro", "tempo para a peteca e tempo para o soneto". Escolhemos começar o trajeto pelo Rio Literário no momento em que a cidade deixou de ser capital da República. A caminhada se inicia com trecho da única crônica que faz parte do volume, homenagem ao carioca Vinícius de Moraes, poeta que passou grande parte da vida tentando completar o que talvez fosse um livro impossível: Roteiro lírico e sentimental da cidade do Rio de Janeiro. [...]
Os textos escolhidos organizam-se em relativa cronologia. Sem demasiada rigidez, que estamos falando de Rio de Janeiro, a produção literária apresentada ordena-se de 1960 a 2005. O leitor logo notará as alterações que vão sendo impingidas à cidade no correr deste período. [...]
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É claro que ao organizar uma seleção como esta não se foge a um cânone pessoal. Mesmo com o risco de cometer exclusões desastrosas, não pude evitar que as escolhas recaíssem, dentre aqueles autores que falam do Rio e os espaços da cidade por eles representados, nos que mais fortemente interpelam meu próprio imaginário de carioca.
O volume se fecha como se iniciou: procurando entender o que é o espírito carioca e o que faz com a literatura que sobre o Rio se produz siga sempre seduzindo os leitores."
As imagens ficaram a cargo de Bruno Veiga, totalmente identificado com o projeto por sua longa carreira de "fixador do imaginário carioca". Entre outros trabalhos, Bruno lançou pela Casa da Palavra, em 2004, Geografia carioca do samba. Todas as fotos foram especialmente produzidas para o livro. Para ressaltar o clima de intimidade e evocação - e nadar contra-corrente na onda digital - Bruno escolheu uma máquina Polaroid SX-70, fabricada em 1979.
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