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O cachorro dormia aos pés de Tomás, e sonhava, sem a memória de uma moça vestida de branco. Às vezes gemia. Em dado momento levantou a cabeça preta e branca num sobressalto e começou a morder a pata para tirar dali um bicho-de-pé. As galinhas d'angola da cozinheira Jorgina repetiam o bordão tô-fraco, tô-fraco que ela escutava sem ouvir. Uma tarde baça e gasta, como um pedaço de borracha velha, um pneu careca. Um fóssil, duzentos milhões de anos.
As buganvílias floresciam de um jeito selvagem, quase agressivas, os galhos deselegantes se impondo sem pedir licença e os espinhos contradizendo a delicadeza da flor. Aquelas buganvílias já estavam ali bem antes de Tomás chegar. Quem sabe permaneceriam depois que ele, de um jeito ou de outro, se fosse.
O cachorro, que não tinha nome ou dono, que simplesmente elegera como sua aquela casa e entendera como seus os restos de comida que a cozinheira passara a pôr duas vezes por dia sobre uma folha de jornal, junto ao tanque, terminou sua operação de remoção de bicho-de-pé e voltou a dormir seus sonhos misteriosos.
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Como os sonhos dos bebês. Tomás se perguntara muitas vezes que espécie de sonhos formigaria na mente de um recém-nascido. Teria lembranças do útero e faria sonhos líquidos e avermelhados? Por um momento fantasiara: que um bebê sonharia com o momento de sua concepção, como se o tivesse testemunhado, como se tivesse acompanhado passo a passo, observador atento, as fases de seu próprio desenvolvimento, um emaranhado de células a que os cientistas foram dando nomes sem poesia, mórula, blástula, gástrula (era isso mesmo?), um embrião, um feto. Que carregaria a emoção quase consciente de identificar desde o princípio, desde o óvulo fecundado, como uma informação genética: sua mãe.
Seu pai.
Seria assim? Não se podia ter certeza.
Os olhos claros de Tomás vez por outra ficavam úmidos, um certo cacoete o acompanhava desde a infância, aquele de manter os olhos abertos sem pestanejar pelo máximo de tempo possível, numa aposta cruel consigo mesmo da qual sairia sempre ganhador e inevitavelmente perdedor. Terminava lacrimejando. Então, na tarde abafada e seca, Tomás libertou de seus olhos dois fiapos prateados que ninguém viu, nem o cachorro, nem a cozinheira Jorgina. Haveria palavras escondidas naquelas lágrimas? Ou seriam lágrimas além das palavras, além do mundo, além da tarde sonolenta e do verão intenso que vinha cavar com os dedos os poros dele mesmo ali naquele refúgio?
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Não era um homem feliz. Nem infeliz. Sentia-se equilibrado, e para isso pagara o preço que achava justo e recebia os cabíveis juros-dividendos-correção-monetária. Abdicara de alguns territórios. Desistira da fantasia de um império. Reinava apenas sobre si mesmo e sobre aquele casebre esquecido no meio de lavouras de importância nenhuma e estradas de terra que viravam poeira na seca e viravam lama na estação das chuvas e não tinham o hábito de conduzir ambições. Quando fora viver ali (mas não por causa disso), ele sabia: o fim dos sonhos. E agora pensava em talvez usar terra em seu próximo trabalho, em sua próxima tela, terra e tinta - ? Seu pensamento era tão pequeno. Tão pequeno. Do tamanho de um gesto de perfume que uma mulher largasse no ar.
No céu muito distante um avião passou quase sem fazer barulho, alto, não havia aeroporto nas proximidades, certamente dirigia-se para o Galeão ou para o Santos Dumont, na capital. A cozinheira Jorgina, que perdera a maior parte dos dentes e agora exibia orgulhosa uma dentadura muito branca, aproximou-se silenciosa de Tomás e colocou uma xícara de café fumegante, cheirando bem, na mesinha de ferro batido da varanda. Não era uma mulher de muitas palavras, na verdade não gostava delas. Pensava, sem pensar, que eram traiçoeiras como um bicho que espreita sua presa, e quase sempre injustas. Olhou para o tempo e suspirou um suspiro sem significados. Depois voltou para o interior da casa e para o fogão onde fumegavam o feijão, o arroz, a carne assada. Ao longe Tomás divisou a picape nova de Ilton Xavier, que rolava apressada pela estrada, exalando poeira. Todos esses discretos movimentos eram como sinais da respiração de um corpo adormecido, só isso, e não chegavam a arranhar a tarde.
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O café estava muito doce, doce demais, mas Tomás aprendera a gostar dele assim, que era a forma da gente dali, economia no pó, fartura no açúcar. O cachorro, a quem uma mutuca incomodava, levantou ágil a cabeça e num só movimento abocanhou o inseto em pleno vôo. Tomás ficou olhando sem interesse para as próprias pernas, descobertas por uma bermuda. Na sua pele estavam as marcas rudes daquele lugar sem asfaltos e concretos, como tatuagens: montes de picadas de mosquitos, de carrapatos, de mutucas e outros bichos, uma pequena cicatriz na panturrilha esquerda, de onde fora tirado um berne, no posto de saúde de Jabuticabais. Coisas que ele vinha angariando ao longo dos últimos anos, desde que fora viver ali. Tão perto e tão longe daquela moça de branco. Junto aos pés dele uma trilha laboriosa de formigas desenhava uma estria viva no chão.
Nem feliz, nem infeliz. Um homem que buscava apenas aquele pequeno silêncio, aquele preciso lacrimejar por nenhum motivo e por todos. A confusão entre si mesmo e a poeira da estrada que a picape nova de Ilton Xavier deixava para trás como um pensamento.
Na sala pequena de chão de cimento vermelho-gasto empilhavam-se os quadros que Cândido viria buscar no fim de semana, as telas de intenção e tamanho despretensiosos vendidas a cem reais cada e destinadas a decorar saletas de classe média interiorana, consultórios médicos, modestos escritórios de advocacia. O tabelião de Jabuticabais comprara duas, segundo Cândido. Uma estava pendurada no cartório, a outra fora presente de casamento para uma sobrinha. Vez por outra alguém encomendava um retrato, o preço dobrava, Cândido ficava satisfeito, mas o humor de Tomás não parecia mudar muito, continuava uniforme como aquela tarde seca.
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Nas pinturas de paisagens havia quase sempre uma estrada que não levava a lugar nenhum. Que sumia atrás de uma árvore, ou numa curva, ou num declive do terreno. E no canto inferior direito ficava aquela assinatura silenciosa de alguém que só assinava seus quadros porque os compradores exigiam. Antes, aos vinte anos, Tomás se recusava a poluir qualquer trabalho seu com uma assinatura imprevista que atrapalhava a composição geral, como alguém tossindo no meio de um concerto, como as luzes de uma sala de projeção acendendo antes do final do filme. Agora, ele fazia o que os clientes quisessem, e para esses clientes uma assinatura dava autenticidade ao quadro. Status. Mesmo a assinatura de um pintor desconhecido. Não podia ser dispensada. Está bem. Não faz diferença. Ele assinava seu nome com tinta preta e caligrafia de estudante de escola primária.
Certa vez uma cliente contou minha sobrinha viajou para a Europa. Foi a Paris. E me trouxe de lá uma reprodução enorme de uma fotografia, uma fotografia preto-e-branco de um homem e uma mulher se beijando no meio da rua. Nunca que eu vou pendurar aquilo na minha sala. Os seus quadros, sim. As suas paisagens, tão bonitas, e além do mais são pintura a óleo, isso tem valor.
Tomás pensou na fotografia magistral de Robert Doisneau e sorriu e acendeu um cigarro e a espiral de fumaça ganhou o espaço como uma serpente encantada. Por um instante esculpiu uma figura feminina que logo se desmanchou no ar. Cansado de tanto dormir, o cachorro levantou-se, coçou a orelha com a pata traseira e esqueceu a pata no ar durante um precioso instante em que olhava a distância e percebia algo que escapava ao homem. Voltou a cabeça e viu a porta aberta atrás de si e teve um pressentimento canino diante do qual sorriu um sorriso canino, invisível de tão suave. Depois foi se deitar dois metros adiante, onde a grama estava alta e talvez mais fresca.
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Não havia mais novidades para Tomás. As palavras eram poucas, decorrência do fato de dividir a maior parte das horas com uma cozinheira que não gostava de conversa e que se comunicava por sorrisos e monossílabos, ou pela ausência deles. Somente de tempos em tempos ele ia até Jabuticabais, a cidade mais próxima, fazer suas compras mais do que modestas. Além disso havia apenas as visitas de sua amiga Clarice. E as visitas a sua amiga Clarice. Que serviam para reiterar a certeza: não havia mais novidades. O percurso estava terminado e Tomás podia agora sentar-se a uma sombra, diante da linha de chegada, que vinha a coincidir com o ponto de partida, como se ele não houvesse se movido ou como se tivesse vivido um grande arco, 360 graus. Dali restava a ele observar a velocidade da rotação do planeta, e a magra sucessão das estações. Nessa realidade, a companhia de Clarice se encaixava sem exigir, sem movimentar, sem fazer alarde. Sem causar dissonâncias que exigissem resposta, silenciosa como tudo mais. Se a espiral de fumaça esculpia uma figura feminina, essa figura não revelava Clarice, definitivamente. Porém, e Tomás devia reconhecê-lo, talvez ainda evocasse aquela outra, apesar de tudo. Aquela que ele iria reencontrar no dia seguinte.
Uma mulher que a memória sempre vestia de branco e de juventude.
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