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Cheguei da rua, não quis incomodá-la, fui me sentar na cozinha e despejei um pouco de café frio num daqueles copinhos de cachaça que usávamos no lugar das xícaras. O café tampou as letras do fundo do copo, e o logotipo escrito ali, e um número, e um nome, Brazil. Esquentei o café no microondas e peguei o livro, quase que por acaso. Sobre a mesa, formigas miúdas fechavam o cerco em torno de um pingo cor-de-rosa de iogurte. Num apartamento do prédio em frente, um homem embalava uma criança nos braços, era possível ver sua silhueta recortada contra a sala iluminada, no crepúsculo.
Talvez por causa do poema, em que meus olhos foram dar, depois que abri o livro casualmente na página 142, resolvi comer uma maçã. E repeti, lembro-me bem: Dentro de ti, em pequenas pevides, palpita a vida prodigiosa, infinitamente.
Morder o seio tenso da fruta e lamber sua pele doce e úmida equivalia a tentar desvendar um segredo. Que segredo seria aquele, que segredo-pevide do qual eu nem mesmo suspeitava, e que me aguardava apenas, no meio do mundo, no meio da minha vida, no meio da tarde? Aguarava, talvez, os dentes que viessem desenterrá-lo, como o coração de qualquer fruta.
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As pequenas pevides aguardavam, pequenas promessas prontas a explodir. Mas não explodiam: seguiam sendo promessas, simples promessas de outra maçã dentro daquela maçã, como as bonecas russas que vão saindo umas de dentro das outras. Como as pessoas que somos, e que vão saindo umas de dentro das outras ao longo dos anos. Ao longo das horas.
No dia seguinte, Teresa morreu.
Uma simples sexta-feira do mês de maio. Depois tudo se tornou difuso, confuso, absurdo até, mas naquele dia não tinha sido nada anormal ouvir o despertador tocar às quinze para as sete, levantar-me da cama, depois receber o bom-dia pastoso com que Teresa me afagava, ficar olhando até ela mergulhar outra vez no sono, em seguida fazer a barba e repetir o programa quase automatizado das minhas manhãs de sexta-feira. Colocar na bolsa os livros para ensinar aquele idioma que quase ninguém mais estudava. Ir me encontrar com os seminaristas. Quam quisque norit artem, in hac se exerceat.
Quem aprende uma arte, que nela se exerça.
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Quando aconteceu o acidente, o afogamento, fazia oito meses que morávamos juntos. Tudo tinha começado numa festa, Teresa bebendo uísque. Aniversário de alguém. Teresa bebendo cerveja. Um batidão tecno que me deixava quase maluco. Teresa bebendo vodca. Teresa vomitando no banheiro de um posto de gasolina e ardendo de dor de cabeça no dia seguinte. A noite acabara de maneira não muito clara, mas o fato é que, pela manhã, eu ali estava, no apartamento dela, em meio a um monte de guimbas de cigarro.
Estávamos na mesma cama, vestidos, e não tínhamos dormido juntos, isto é, feito sexo, mas apenas dormido juntos. Bebemos meia garrafa d'água cada um ao acordar. A dor de cabeça de Teresa parou de doer depois de um analgésico, café, uns pães que fui comprar na padaria da esquina e um banho frio.
Foi então que conheci Teresa, em toda sua intensidade e doçura - pois Teresa também era isso: doçura. Ela parecia bossa-nova. Parecia uma música de Tom Jobim. E por que é que eu também não fui feliz? Bobagem achar que a vida cabe num verso, cabe no bolso, cabe no espaço que sobra entre dois corpos quando nenhum espaço parece separá-los.
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Hoje é o tempo de colher as dúvidas. Sinto como se estivesse metido em mim mesmo por pura inércia, seguindo adiante porque me deram duas pernas e ossos e músculos que movem as pernas e sinapses e nervos e um cérebro. Não sei se um dia fui outro homem ou uma mulher ou um vaga-lume. Não sei se medito, se morro de espanto ou se venho de muito longe.
No começo, tudo era claro, quase transparente, inofensivo e bom. Mas hoje as dúvidas vão brotando do chão em muitas cores, povoam todo o espaço até onde meus olhos enxergam e além, e eu me surpreendo achando que preciso duvidar até mesmo delas, das dúvidas, por não serem um bem que eu possa contabilizar. Elas vão se multiplicando, curiosamente dentro do espectro de uma única certeza. A certeza que me dói, que me morde feito úlcera.
O que foi que aconteceu, de fato, nesses últimos oito meses? Para que eles desaguassem aqui? Talvez tudo não passe de uma impressão mais ou menos vaga de alguma coisa, um movimento quase imperceptível em meio ao enorme pensamento do universo (uma vez um físico famoso disse isso, que o universo era feito um enorme pensamento).
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E se ganhar e perder Teresa na verdade não mudou quase nada? E se este momento já estava, digamos, predestinado, gravado por aí em algum roteiro celeste? Teresa bossa-nova, oito meses e hoje já aprendi a relativizar o tempo. Bobagem achar que o tempo cabe no tempo. Teresa bem poderia ter sido só a mão que empurra, que segura as pálpebras do outro bem abertas e diz olhe, as coisas jamais são o que parecem. Você é capaz de compreender isso e continuar andando do mesmo jeito pelas calçadas, desviando-se dos cocôs de cachorro, dos camelôs e dos mendigos, reparando num despacho na encruzilhada, olhando eletrodomésticos nas vitrines, adolescentes bonitas, xingando o carro que quase te atropela ao furar o sinal? Teresa poderia ter sido apenas essa pergunta. Uma pergunta bem simples, aliás.
A primeira vez que vi Teresa, reparei nas pernas. Achei estúpidas. Mais curioso ainda, achei que a cara parecia uma perna. Na festa, ela dançava. Eu devia apagar dos ouvidos a música tecno e inventar outra trilha sonora para Teresa. Ela dançava sozinha no meio de todo mundo com aquelas suas pernas estúpidas que terminavam em pés metidos num par inacreditável (e estúpido) de saltos. Até hoje não sei como as mulheres conseguem, os saltos. Dançar, ainda por cima. Acabei inventando mesmo uma trilha sonora para Teresa, quando, no dia seguinte, descobri que ela era bossa-nova.
Mais tarde, invadi sua estante de CDs com um silencioso carregamento de Joões Gilbertos e Tons Jobins. Também levei Stravinsky e Pixinguinha. Ensinei para Teresa que a gente não deve dizer chorinho, que o nome é choro, sem diminutivo.
Quando Teresa morreu, pus para tocar o Réquiem de Stravinsky. Foi o enterro dela, porque não chegaram a encontrar o corpo, perdido nas águas de Mangaratiba. Ouvi Stravinsky. E chorei, é claro.
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