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O CIRCO DO MIUDINHO: GUIMARÃES ROSA E A POÉTICA DO PEQUENO Adriana Lisboa
apresentado como comunicação no II Congresso Internacional Guimarães Rosa,
PUC-Minas, Belo Horizonte, 2001.
Manuel Bandeira é, entre nós, o autor cuja obra melhor traduz uma espécie de adesão ao pequeno, às coisas simples, à realidade limitada da vida - o que, no entanto, nada tem de vulgaridade ou prosaísmo. É a partir desse olhar que nasce o "alumbramento", a transcendência, o desentranhar do poético em meio ao humilde cotidiano.
Lemos, por exemplo, no Último poema, de Libertinagem:
Assim eu quereria que fosse meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Bandeira, 1987, pg. 119)
Para além de fronteiras históricas, geográficas ou sociológicas, esse olhar, a que chamarei poética do pequeno, aparece nitidamente em certos autores, ou em certas obras, ainda que por tangentes distintas, e ainda que revelando um compromisso de intensidade variável. Em O quieto animal da esquina, de João Gilberto Noll, o olhar para o pequeno vem pelo viés da desilusão e do descompromisso, e sufoca qualquer possível vontade de sublime:
Encontrei um bicho horrível debaixo do fogão. Poderia ser uma aranha mas mais se assemelhava a um verdugo. Eu estava ajoelhado e o esmaguei com a base do lampião. A lua era cheia. O céu baixo coalhado de estrelas entrava pela janela da cozinha. Dezembro, mas a noite não poderia ser chamada de quente. É que ventava. (Noll, pg. 479)
A indiana Arundhati Roy, autora do romance best-seller sugestivamente intitulado O deus das pequenas coisas, compartilha esse mesmo olhar em determinadas passagens de seu livro (ainda que em outras opte por uma metaforização intensa que foge a uma poética voltada para o aparentemente trivial):
Estha sempre fora uma criança calada, de modo que ninguém conseguia definir com algum grau de precisão quando exatamente (o ano, senão o mês e o dia) ele tinha parado de falar. Quer dizer, parado de falar de uma vez. O fato é que não havia um "exatamente quando". Tinha sido como uma loja que gradualmente vai desativando os negócios até fechar as portas. (...) O silêncio de Estha, porém, nunca era canhestro. Nunca invasivo. Nunca ruidoso. Não era um silêncio acusador, que protesta, era mais uma espécie de estio, de dormência, de equivalente psicológico àquilo que os peixes pulmonados fazem para atravessar a estação seca, só que no caso de Estha a estação seca parecia durar para sempre. (Roy, 1988, pg. 22)
Ao fazer da leveza uma de suas Seis propostas para o próximo milênio, Italo Calvino identifica um olhar bastante próximo daquele a que me refiro em diversos autores, de Lucrécio a Emily Dickinson, passando por Shakespeare. Cita os seguintes versos da poeta norte-americana do século XIX:
A sepal, a petal, and a thorn
Upon a common summer's morn -
A flask of Dew - a Bee or two -
A Breeze - a caper in the trees -
And I'm a Rose!
[Uma sépala, uma pétala, um espinho
Numa simples manhã de verão...
Um frasco de Orvalho... Uma abelha ou duas...
Uma brisa... um bulício nas árvores...
E eis-me Rosa!]
(Calvino, 1993, pg. 28)
Finalmente, é possível identificar uma poética do pequeno na novela Campo geral, de Guimarães Rosa, delicado relato de um trecho da vida do menino Miguilim - já de saída apresentado com "um certo Miguilim", que "morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d'Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum." (Rosa, 1994, pg 465). Miguilim tinha oito anos e "nascera ainda mais longe, também em buraco de mato, lugar chamado Pau-Roxo, na beira do Saririnhém." (Rosa, 1994, pg. 466).
A história de Miguilim se tece e recorta no pequeno, num viver devagarinho, miudinho, num dizer coisas dançadas no ar, num chuvisco de choro que molha o travesseiro - choro simples, que é só a diferença das coisas todas da vida. Miguilim ouve o quirquincho do tatu, o afurôo dos cachorros, gosta de ver as formigas e os caramujos e o rastro branco que os caramujos deixam por onde passam. Tem saudades da cachorra Cuca Pingo de Ouro e às vezes tem raiva de Pai.
Uns dizem que o Mutum é bonito, e o próprio Miguilim gosta dali demais, embora a mata próxima às vezes lhe meta medo, e embora o próprio Miguilim não saiba muito bem distinguir entre o que é feio e o que é bonito. Na história dele, não há espaço para esses excessos, beleza, feiúra. O melhor de tudo são os momentos como aquele que a memória guarda, na fazenda dos Barbóz:
Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, de uma xícara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava à claridade. Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas - cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha. (Rosa, 1994, pg. 467)
Lá no Mutum vivem os irmãos de Miguilim: Dito, Tomezinho, Drelina e Chica. Um outro, o Liovaldo, mais velho, já foi embora dali. Vivem Pai, Nhô Berno, e Mãe, Nhanina, mais Vovó Izidra, Maria Pretinha, Rosa e Mãitina, que dizem feiticeira, preta de um preto estúrdio que gosta de beber muita cachaça. Vive ainda o tio Terez, mas esse vai embora no meio da chuva forte, Pai não quer mais que Mãe converse com ele.
Campo geral é a promessa de história, é a vida de Miguilim em seu miúdo cotidiano, desde a crisma no Sucurijú (de onde traz um valioso presente à mãe, opinião de alguém - que o Mutum era bonito) até a triste morte de Dito e a trágica morte de Pai, até a perspectiva do casamento de Mãe com Tio Terez - e, finalmente, até a chegada do doutor José Lourenço, do Curvelo, com quem Miguilim vai-se embora do Mutum para freqüentar escola, aprender ofício. E comprar óculos, porque o doutor descobre que o menino é míope.
Resumo? As palavras de Dito:
O Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma. (Rosa, 1994, pg. 540)
Sentido? A conversa final de Miguilim com a mãe:
- Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo?
- Miguilim, me abraça, meu filhinho, que eu te tenho tanto amor. (Rosa, 1994, pg. 541)
Uma ressalva faz-se necessária, já que falamos de Guimarães Rosa: o autor de Campo geral é tido, ao lado de Clarice Lispector, como o grande expoente de nosso alto modernismo literário, que individualizou-se justamente pela linguagem vanguardista, o que sem dúvida nos despacha para bem longe da poética do pequeno. A história de Miguilim, porém, não parece gravitar tanto em torno dos experimentalismos formais quanto, por exemplo, Grande sertão: veredas, guardando apenas o traço estilístico que individualiza a obra de Guimarães Rosa, mas num sentido que parece corroborar a opção por uma narrativa mais contida, mais leve e delicada. Esse dado acentua-se pelo fato de tratar-se da história de um menininho de oito anos de idade, narrada de forma totalmente embebida nos desejos, anseios e preocupações desse menino, Miguilim. Aqui a temática grandiosa encontra-se inteiramente abolida. Diante do medo da morte, por exemplo, eis o pacto que faz Miguilim:
Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então - ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam... três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! (Rosa, pg. 448)
Miguilim é sem alarde. Campo geral, sua história, pulsa em silêncio e delicadeza, não sabe aos jogos do sublime, mas tampouco os desconstrói: é uma poesia de terceira margem. Nem luxo, nem lixo.
Nós, seus leitores, vivemos um mundo que é muitos. Múltiplo, multiplicado, mundo de veredas que se bifurcam e se bifurcam e se bifurcam e nem sempre desembocam num grande sertão: às vezes não desembocam, morrem ali mesmo numa curva. Secam, em silêncio. Ou então brotam, em silêncio, intercomunicando-se no rizoma de que falaram Deleuze e Guattari. O grande sertão é o lugar das grandes metáforas, da travessia, de Deus e do diabo; lá, viver viver é muito perigoso, mas nas veredas do Mutum a vida não faz mais do que arranhar muito de leve a pele do mundo. Lá, o ser-tão. Aqui, ser quase nada: ser, quase nada.
Nossa bússola pós-moderna oferece-nos muitos rumos, caminhos, direções de leitura. Nem sempre é a leste que nasce o sol, muitas vezes sequer há um sol - ou um único. É o imperativo da dúvida assimilada que rege atualmente nosso pensamento. Dúvida que pode ser criativa e estimulante, como bem salientou Vilém Flusser, definindo-a como "um estado de espírito polivalente". (Flusser, 1999, pg. 17) Ou, na síntese de Gustavo Bernardo, dúvida que equivale a uma suspensão de juízo e a uma suspeita que "exigem uma certa ironia bastante fina, dando inclusive tempo ao pensamento, que se esfalfa quando supõe que a verdade ou as respostas certas se encontram logo ali na esquina." (Bernardo, 2000, pg. 87). Podemos identificar, em nossa contemporaneidade, a presença de um ceticismo atualizado, ao qual em parte vinculo a enorme adequação de uma escrita do pequeno. Se não somos como os gregos antigos, que almejavam uma radical suspensão de juízo acerca das coisas (trata-se da ataraxia proposta pelo ceticismo pirrônico), vislumbramos uma terceira via, que se encontra aquém das grandes máximas e do dogmatismo, mas que também não sente vertigens diante do abismo da falta de sentido.
Dentro desse panorama, é natural que no momento alguns jovens escritores brasileiros optem, como uma entre as muitas ramificações do rizoma, pelo caminho do pequeno. Pela trilha que não aspira ao sublime - àquilo que, nas palavras de Kant, é "absolutamente e em todos os sentidos (acima de toda comparação) grande" (Kant, 1995, pg. 95), mas que tampouco recorre ao abjeto, às excreções, secreções e desatinos que são o rosto mais radical da dessublimação.
Poderíamos considerar essa estética do pequeno uma janela da literatura pós-moderna, já que nossa época observa e perpetra um movimento no sentido da descanonização, do apagamento do eu, da hibridação e, como já foi dito, da multiplicidade. Idéias e ações grandiosas já não parecem fazer parte de nosso glossário. Sabemos, também, que já não nos organizamos em grupos que rezem sobre uma mesma cartilha e exorcisem um mesmo satanás. Trilhando os acirrados debates teóricos que tiveram lugar sobretudo na década de 1980, e que envolveram nomes do quilate de Susan Sontag, Fredric Jameson, Jean-François Lyotard, Linda Hutcheon e Ihab Hassan, constatamos que críticos, artistas e ensaístas não chegam a abarcar a contemporaneidade num consenso teórico - muitos sequer se propõem a fazê-lo, como é o caso, entre nós, de Nicolau Sevcenko. Aqui e ali, o próprio conceito de pós-modernidade é rechaçado, ou, se não o conceito, o termo que pretende delimitá-lo. Entre os que se valem desse termo, há apocalípticos e integrados, defensores, detratores e tranqüilos observadores, como o lúcido John Barth, que sublinha, muito a propósito:
Artistas reais, textos reais raramente são mais do que mais ou menos modernistas, pós-modernistas, formalistas, simbolistas, realistas, surrealistas, comprometidos politicamente, esteticamente "puros", "experimentais", regionalistas, internacionalistas, o que mais você quiser. (Barth, 1984, pg. 200)
Umberto Eco está entre os que afirmam que pós-moderno é apenas "um modo de operar", e que "cada época tem seu próprio pós-moderno, como cada época teria seu próprio maneirismo." (Eco, 1985, pg. 55) Pensando com o autor do best-seller O nome da Rosa, poderíamos dizer que cada época teria sua própria estética do pequeno, seu próprio quinhão de obras literárias compartilhando as características que descrevi acima. Isso nos leva de volta à pós-moderna indiana Arundhati Roy. Ao São João Batista do modernismo brasileiro, Manuel Bandeira. A Emily Dickinson e a João Gilberto Noll. E ao Campo geral de Guimarães Rosa.
Em época de descanonização, em tempos de leitores, autores e livros constituindo uma tríade normalizada (e todos com iniciais minúsculas), talvez a única verdade possível esteja não nos manuais ou na academia, mas em nossas mesas de cabeceira. Paradoxalmente, a pós-modernidade parece ser uma época que duvida de si mesma, cética a priori, ao dissolver as fronteiras históricas e deslegitimar o emblema do novo e do original, fazendo com que o passado (e o futuro?, e os distintos presentes?) viajem até nós. Dizia Linda Hutcheon que "o passado como referente não é enquadrado nem apagado (...). Ele é incorporado e modificado, recebendo uma vida e um sentido novos e diferentes." (Hutcheon, 1991, pg. 45).
Se dispomos, hoje, de muitas possibilidades de olhar, uma delas é justamente essa tranqüila superficialidade em que não comparecem o julgamento moral e o querer fazer sentido. Podemos ler Miguilim como ele próprio sugeriu: tudo igual ao igual, sem esparrame nenhum, nunca, sem espanto novo de assunto. Como o pessoal da família dele, cada um lidando em suas miúdas obrigações, no usozinho.
Deleuze e Guattari nos ensinaram que "com o passar dos anos, os livros envelhecem, ou, ao contrário, recebem uma segunda juventude. Ora eles engordam e incham, ora modificam seus traços, acentuam suas arestas, fazem subir à superfície novos planos." (Deleuze & Guattari, 1995, pg. 7) A história de Miguilim atualiza-se em nossa literatura contemporânea e empresta sua voz a esse coro de sutil poesia. Esse coro de gestos discretos em que se ouve a delicada respiração das pequenas coisas.
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Referências bibliográficas
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 14a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
BARTH, John. The literature of replenishment. In: The Friday book: essays and other nonfiction. Baltimore: Johns Hopkins UP, 1997. P. 193-206.
BERNARDO, Gustavo. Ceticismo e fenomenologia na borda da literatura comparada. In: COSSON, Rildo (org.). O presente e o futuro das letras. Pelotas: UFPel, 2000. P. 87-99.
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia - vol 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
ECO, Umberto. Pós-escrito a "O nome da rosa". Trad. Letizia Zini Antunes e Álvaro Lorencini. 3a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
FLUSSER, Vilém. A dúvida. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
HUTCHEON, Linda. Moldando o pós-moderno: a paródia e a política. In: A poética do pós-modernismo. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991. P. 42-59.
KANT, Immanuel. Analítica do sublime. In: Crítica da faculdade de juízo. Trad. Valerio Rohden e António Marques. 2a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. P. 89-181.
NOLL, João Gilberto. O quieto animal da esquina. In: Romances e contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. P. 443-494.
ROSA, João Guimarães. Campo geral. In: Ficção completa - vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. P. 465-542.
ROY, Arundhati. O deus das pequenas coisas. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
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