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Um pedaço comprido de barbante
Adriana Lisboa
publicado na revista
do jornal O Globo em 30.12.2007
Minha irmã gostava de organizar a festa junina. As bandeirinhas eram feitas com páginas de revistas velhas, minha parte preferida. A gente recortava os retângulos com aquele V para dentro e depois dobrava a ponta e prendia com cola num pedaço comprido de barbante.
A memória é um livro de ficção. Um livro com letras móveis de palavras móveis que trocam de página, que às vezes somem, que reaparecem adiante, e o tempo passa e o tempo passado só existe ali, nos rearranjos que a memória faz.
Ana, minha irmã, gostava de organizar a festa junina, e eu esperava pelo momento de pedurar as tripas compridas de barbante com as bandeirinhas feitas de páginas de revistas velhas e o momento de avançar no prato de cocadas e não entendia como alguém podia gostar de pé-de-moleque. Amendoim em doce não presta. Amendoim é um ser de existência salgada.
E a gente levava a vitrola e o resto do aparelho de som do meu pai para o quintal e os discos de música caipira. A festa junina era sempre a mais esperada do ano. Eu não ganhava presentes, como no aniversário ou no Natal. Eu não via fogos de artifício nem tinha direito ao meu gole de champanhe, como no Ano Novo. Mas era a mais esperada. E ainda por cima tinha a roupa, o chapéu de palha desfiado, os babados e rendas e retalhos do vestido.
A memória combina com minha mãe tocando violão e todo mundo cantando (mas meu pai cantando mais do que todo mundo porque a voz dele sempre foi a mais bonita e a mais afinada). Minha mãe nasceu em junho. Meu sobrinho também - mas quando ele nasceu Ana já não organizava mais a festa junina.
Demorei algum tempo para aceitar as festas juninas com bandeirinhas compradas prontas. Passadismo. Também demorei para aceitar a luz elétrica que colocaram na casa do meu avô, na fazenda, acabando com as velas e os lampiões.
Tia Lena fazia festas juninas na fazenda. Todo mundo vinha de toda parte e a memória dessas festas é feita de frio e uma fogueira imensa e meus pais dançando a dança da laranja. Acho que eles ganharam alguma coisa. Algum prêmio. Uma vez a gente foi à festa da tia Lena e deixou o fogão a lenha com algumas brasas ainda acesas em casa e quando voltamos o banco de madeira da cozinha, verde, aquele que ficava ao lado do fogão, era só um toco. Uma brasa pulou em cima dele e tranqüilamente o consumiu. Foi o dia em que meu irmão me ensinou a galopar. O dia em que levei aquele tombo do cavalo.
A memória é um livro de ficção com páginas mal costuradas e lombada frouxa. Um livro com letras móveis de palavras móveis, e o tempo tempo tempo tempo. Uma oração.
Anos depois eu saía em romaria pelas ruas do Flamengo em busca de festas juninas. As igrejas davam festas. Às vezes as pessoas fechavam as ruas sem saída e as festas juninas tinham passado a tocar funk. (Saudades da luz dos lampiões e do banho que só esquentava quando o fogão a lenha estava aceso, a vela às vezes apagava no meio do caminho entre o quarto e o banheiro e havia aquela vidraça e para além da vidraça os espíritos negros das árvores lá fora.)
Na festa junina da faculdade colocavam cachaça dentro do feijão amigo. Experimentei. Era horrível. Nunca imaginaria que duas coisas tão boas individualmente, i.e., feijão e cachaça, se misturadas podiam resultar naquele estrago. Mas a memória da festa da faculdade combina com música ao vivo, uma professora tocando acordeom e toda uma banda de primeira. Vantagens de fazer graduação em música.
A memória é um livro de ficção, uma partitura de notas coloridas, ora um cavaquinho toca, ora um violão, ora o piano de Debussy que em tese não tem nada a ver com festas juninas mas a memória é soberana, a memória se lembra dos fatos que importam, e se falta importância ela inventa. Uma oração. Um dia dos namorados.
Minha mãe quando era moça tocava acordeom e saía pela estrada de terra em noites de lua cheia e as outras pessoas saíam com ela. Lembro-me disso. Lembro-me de quando minha mãe era criança e lembro-me de quando minha mãe nasceu, em junho, fazia tanto frio. (É possível, já que tocamos no assunto, que o piano tenha morrido em junho também, reduzido a uma pilha de madeira esfacelada no quintal, quando eu e meu primo fomos pegar as teclas. Nunca tínhamos visto teclas sem piano.)
Ana gostava de organizar a festa junina. As bandeirinhas eram feitas com páginas de revistas velhas, a gente recortava os retângulos com aquele V para dentro e depois dobrava a ponta e prendia com cola num pedaço comprido de barbante.
Até que, um dia, muitos anos depois, ouvi falar de alguém. Foi numa festa junina. Ele estava em Minas, numa cidade no interior de Minas, e eu no Rio. Falaram dele na festa junina. Nós não nos conhecíamos. Seríamos apresentados no dia seguinte. Eu já sabia de quase tudo, porque há coisas assim, que acontecem antes mesmo de acontecer. E caminhava sozinha por entre as pessoas que me acompanhavam na festa, no mundo. Havia todo esse estofo composto de feijão amigo e cocadas e o acordeom da minha mãe e uma oração ao tempo. Naquela festa junina, nós ainda não nos conhecíamos. Éramos livro de ficção. Partitura sem partitura, acordes para um improviso. Solstício de inverno no hemisfério sul, solstício de verão no hemisfério norte. A noite mais longa do ano, ou a mais curta, e o sol em sua órbita elíptica e uma vela se apagando na memória e o nascimento da minha mãe.
Uma festa junina, centenas de quilômetros entre Minas e o Rio, entre mim e ele, até o dia seguinte. Mas eu podia esperar. Podia esperar, entoando uma oração ao tempo, para contar a ele, entre outras coisas: que Ana gostava de organizar a festa junina, e que eu aguardava o momento de pendurar as tripas compridas de barbante com as bandeirinhas feitas de páginas de revistas velhas como se toda minha história futura dependesse disso.
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