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A FICÇÃO INSTIGANTE DE UMA BELA ROMANCISTA
Carlos Herculano Lopes
Publicado originalmente no jornal Estado de Minas,
Caderno de Cultura em 10.03.2004.
Adriana Lisboa acerta a mão no terceiro romance que lança, Um beijo de colombina.
Para quem acha que a literatura brasileira está no marasmo e não tem se renovado, uma boa dica é ler Adriana Lisboa. Carioca de 33 anos, autora dos romances Os fios da memória e Sinfonia em branco, com o qual venceu em Portugal o Prêmio José Saramago concedido pela Fundação Círculo de Leitores, ela está com novo romance, Um beijo de colombina. Tradutora do recém-lançado Dicionário o pequeno rebelde, da francesa Claudine Desmarteau, a escritora agora se inspirou na obra poética de Manuel Bandeira, considerado, sem meias-palavras, como um dos maiores poetas da humanidade. "Se eu tivesse de escolher o meu cânone, sem dúvida ele estaria entre os primeiros nomes", afirma a romancista, que a partir dos versos de Bandeira construiu sua nova história.
Narrada por um homem, cuja namorada, Teresa, morreu afogada, e o corpo nunca mais apareceu, Adriana Lisboa, passo a passo, vai levando o leitor a saber, entre outras coisas, que sua personagem era escritura, bissexual, e só se tornou conhecida depois de morta. Mas nada além disso, nada de autobiografia. "Tudo é ficção", avisa, antecipando-se à pergunta que já ouviu milhares de vezes. "Essa confusão entre Teresa e Adriana sempre me surpreende e diverte, já que ela foi o canal das minhas maiores críticas - à fama, ao sucesso e à busca de uma celebridade que, no caso da literatura nacional, precisa transcender a própria literatura".
Na realidade, Teresa serviu para que Adriana se perguntasse, e também ao leitor, "se uma existência mais discreta e menos ambiciosa não seria mais interessante e invejável". Seja como for, uma coisa curiosa é que a própria Adriana, que vive em Teresópolis, com direito a escapadas constantes do Rio de Janeiro, para sentir a brisa do calçadão, confessa que, em Um beijo de colombina, sua identificação maior é com o narrador e não com Teresa. "Talvez com o leitor não se dê a mesma coisa", diz a escritora.
Ela conta que começou a escrever desde a infância, com alguns intervalos, quando se bandeou para música. "Quando a música começou a tomar o espaço da literatura e me exigir dedicação exclusiva, desliguei-me dela para tentar me profissionalizar como ficcionista", afirma Adriana Lisboa, confessando que, vida afora, tem aprendido a escrever, não só a partir da leitura de muitos livros, como também com filmes e fotografias.
Mas se é leitora constante, confessa que, fora alguns novos, como Marcelo Moutinho, Daniela Versiani e Claudia Lage, com os quais se identifica, não conhece muita coisa do que a moçada vem fazendo no Brasil. "Eu deveria ler os brasileiros contemporâneos mais do que leio, mas não tem dado tempo, são muitos lançamentos, são muitos novos autores", se penitencia. Por outro lado, por achar importantíssimo "esse olhar para fora, para longe do próprio umbigo", costuma privilegiar, nas leituras, mais os autores estrangeiros do que os da terra.
A ainda no embalo do sucesso que Um beijo de colombina vem alcançando, esta bonita carioca tem na agulha um livro de contos curtos e poemas em prosa, além de um novo romance, este baseado nos diários de viagem do poeta japonês Matsuo Bashô, que viveu no século XVII. "Devido a este projeto, estou também estudando poesia clássica japonesa e tentando aprender o idioma", conta.
Carlos Herculano Lopes é jornalista e escritor.
Publicou, entre outros, A dança dos cabelos (Rio: Record, 2001).
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