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A FORÇA IMAGÉTICA DOS INSTANTES DE ADRIANA LISBOA
Henrique Rodrigues
Publicado originalmente no Jornal do Brasil - Caderno Idéias em 05.02.2005
Adriana Lisboa é uma das mais proeminentes narradoras brasileiras dos nossos dias. Com apenas três livros publicados, dentre os quais o primoroso Sinfonia em branco (não por acaso vencedor do Prêmio José Saramago em 2003 como melhor romance escrito em língua portuguesa), a escritora vem se firmando como um nome consistente e respeitado no vasto mundo literário contemporâneo.
O recém-lançado Caligrafias reúne pequenas narrativas produzidas entre 1996 e 2004. Alguns desses textos, com o mesmo título, foram inseridos na coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada por Luiz Ruffato. Se ali a sucessão de textos curtos pareceu diluída no emaranhado da diversidade formal, a oportunidade de lê-los numa obra autônoma lhes dá uma outra perspectiva literária.
Inicialmente pensados como exercícios de escrita, os textos passaram por uma seleção e passaram por tratamento gráfico simples e eficaz, que se engrandece com os desenhos do artista plástico Gianguido Bonfanti. Seus desenhos sugerem uma movimentação de corpos, conferindo ao livro uma dinâmica à parte, embora a maioria esteja atrelada a um dos fragmentos.
Os pequenos textos partem de situações que à primeira vista seriam banais. Uma viagem de ônibus, um sonho antigo, um cachorro atropelado ou mesmo um menino pedindo esmola são o mote dos retratos delicados e de singular qualidade descritiva, como no intitulado ''Quintal'': ''Cinco minutos de chuva. Ninguém tirou as roupas do varal. (...) O sol voltou a brilhar e as palmeiras projetam sombras aveludadas sobre a grama brilhante. O muro está sujo de terra na parte mais baixa. Uma pilha de tijolos e três estacas de madeira onde crescem os pepinos. As colchas brancas cintilam, no varal, e o verão nasce na voz das cigarras.''
O caráter descritivo e condensado do livro, em que a força imagética se mescla à sutileza dos instantes, possibilita ao leitor vislumbrar uma espécie de hai-kais narrativos, em cujo processo de absorção se somam as propriedades dinâmicas dos desenhos.
Uma das maiores características de Adriana Lisboa obviamente não está presente em Caligrafias (a refinada capacidade - infelizmente não tão comum na produção atual - de costurar uma história e gerar unidade narrativa). É uma obra assumidamente menor que os romances, pois consiste naquilo que o meio acadêmico vem estudando como rastros ou arestas que os autores vão deixando paralelos à sua obra, sendo que, na maior parte dos casos, a publicação é póstuma, muitas vezes contrariando a vontade deixada pelo autor. A diferença é que aqui houve uma intenção de reunir esses elementos e apresentá-los num conjunto.
Se tivessem sido escritos em blogs, os textos desse belo livro representariam a transposição entre os diferentes suportes (internet e livro), seguindo o caminho já quase natural de muitos autores. A proposta de Adriana Lisboa, em viés similar, revela que mesmo os exercícios do escritor podem render bons momentos de leitura quando os fragmentos de textos são organizados de maneira coesa.
Henrique Rodrigues é escritor.
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