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AS DORES DE UM PIERRÔ QUALQUER
Tais Martins
Publicado originalmente na revista virtual Reator, da ECO/UFRJ, em 01.07.2004.
Uma perda. Saudade. Muitas dores. Tempo e palavras. Os caminhos de uma pessoa para compreender a dor, a perda, a saudade, o amor interrompido pela estupidez do destino. E a doçura do lirismo de Manuel Bandeira.
"Um beijo de Colombina", de Adriana Lisboa, fala sobre a passagem. Não do início, nem do fim, mas da passagem. Teresa, uma jovem e talentosa escritora, morre afogada em Mangaratiba (RJ) e seu corpo não é encontrado. Seu namorado, o narrador do livro, atormentado pela incompreensão da fatalidade, entra no mundo de Teresa e dele se alimenta para escrever, como num desespero por entender o acidente e seus sentimentos a partir de então - sua passagem.
A história se desenvolve como uma espécie de diário. Sem obedecer nenhuma ordem, o namorado de Teresa, um professor de latim, conta como a conheceu, como passaram a viver juntos, seu relacionamento, a bissexualidade e a fama póstuma da escritora, intercalando seu passado com as agruras que vive após o afogamento. Conta conforme sua necessidade momentânea, como se recorresse a escrever para ir desvendando suas incompreensões uma a uma, num lento processo de vivenciar suas dores, também uma a uma. A linguagem não é direta nem objetiva, não há intenção de explicar didática nem metodicamente o que pensa o professor. Não busca concluir certezas sobre o que aconteceu, mas entender mais claramente a dor por que está passando. Afinal, são seus sentimentos e, de certa forma, caberia a ele, unicamente, organizá-los.
Ao acompanhar essa busca, somos envolvidos pelo que diferencia Adriana Lisboa de muitos de seus contemporâneos: uma poesia sutil e delicada que se sente nos relatos. Para isso, além de "divagações filosóficas" bem construídas e inteligentes, Adriana, que é formada em Letras, mergulha na poética de Manuel Bandeira e constrói seu romance a partir de poemas do livro "Estrela da vida inteira". Os trechos dos poemas se mesclam de tal forma ao texto que deixam de ser referências de uma simples homenagem e tornam-se a unidade de escritura do texto. Tudo nas divagações do narrador se apropria da poesia de Bandeira para criar a poesia em prosa de Adriana.
A arte imita a vida que imita a arte...
Mas Bandeira tem uma função a mais na história, que se soma a já importante presença de seus poemas. Antes de morrer, Teresa planejava escrever um romance baseado na obra do famoso poeta. Parece, para seu namorado, que, após a morte da escritora, tudo o que remete a Teresa passa a respirar Manuel Bandeira, e é esse ar que inspira o narrador para escrever seus relatos. Cria-se, então, uma metalinguagem que só se esclarece completamente no desfecho da história, e só por fim é possível perceber o quanto há do lirismo emprestado de Bandeira na poética de "Um beijo de colombina" - o livro, que é o livro dentro do livro, que na verdade só existe por causa do livro dentro do livro, que passa a ser o livro de verdade; assim como "a arte que imita a vida que imita a arte que imita a vida".
Aos poucos, as certezas sobre as circunstâncias da morte de Teresa vão se desfazendo, mas o livro não perde seu quê de diário. Ainda assim se pode mergulhar nos sentimentos do narrador e reconhecer-se na suas incertezas. Aliás, esse reconhecimento das dores próprias nas dores alheias é o que faz com que seu diário possa ser o nosso também, o de qualquer um. A identificação do leitor com o narrador é quase imediata; trata-se de uma pessoa de verdade, de carne, osso, dúvidas e dor, uma verossimilhança alcançada pelo humanismo dos relatos. As certezas incertas e as incertezas certas são o caráter temporal que permeiam suas dúvidas, o que é típico da contemporaneidade que se sente no vazio, a contemporaneidade dos leitores.
Assim como convivem a uma distância de cinco páginas as duas versões de Teresa de Manuel Bandeira, convivem a uma tênue distância - senão mescladas - a obra de Adriana Lisboa e sua inspiração em Bandeira, da mesma forma que os limites entre os leitores, o narrador e a autora (que também vê seu reflexo na história) se perdem na fusão de uma mesma dor. Cinco páginas, mas "se o preto das letras pudesse num certo momento vir a se coagular, e sobrariam três pontos, depois nem isso, três grãos de areia, três gotas de água salgada".
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