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Azul - corvo

Novo livro de Adriana Lisboa cultiva o desencanto sem perder de vista a poesia 
PEDRO MEIRA MONTEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em "Azul-Corvo", Adriana Lisboa fixou um tom, sem deixar de surpreender. Como nos anteriores "Rakushisha" e "Um Beijo de Colombina", a narrativa é discreta, sem lances heroicos ou impactantes, e a história é simples.  As influências literárias não se explicitam, porque a boa literatura prescinde de qualquer exibicionismo. 
Nela, os diálogos com outras obras apenas se adivinham. Assim, o desconforto que atravessa o livro pode evocar antecedentes ilustres.  De início, Vanja se vê num lugar estranho: "Não havia nenhuma brisa, nenhum hálito que viesse me aliviar um pouco entrando pelas frestas da blusa, levantando a barra da saia ou sacudindo meu cabelo com promessas de salvação. Em compensação, eu nunca via baratas". 
Não houve já uma barata que disparou pensamentos sobre a vida e a morte, o tempo e o corpo, a espera e o sentido, a corrupção e a redenção? Não são estes os temas de "A Paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector? 
A boa literatura muda sutilmente o eixo das grandes obras. Vanja deixa as onipresentes baratas de Copacabana para encontrar, no desértico Colorado, outras misteriosas mutações, utopias e distopias, desaparecidos e presentes. 
O desassossego, o gozo diante da matéria e o fim da transcendência, que deram tom à prosa de Lispector, cedem a um mundo de perguntas ingênuas e agudas, como se no lugar do arrebatamento místico se flagrasse um olhar desencantado.  A mágica de Adriana Lisboa está em cultivar o desencanto sem perder de vista a poesia. Em sua prosa se sentem, delicadas, as crispações da alma dos personagens, que conhecemos graças a uma emigrada adolescente.
O desdobramento temporal é sua pedra de toque: a narradora atualiza o olhar quase adulto que foi o seu, quando descobriu, entre línguas e culturas diversas, a paisagem norte-americana e a falta de um pai.
Os anos entre o momento fictício da escrita e a história narrada fazem com que um leque de dúvidas se abra, confrontando as razões proclamadas do mundo.  Pelos olhos de uma jovem, a quem a escrita permite rever o tempo em que começava a deixar de ser jovem, testemunhamos que escrever é uma forma de perguntar pelo destino: o que foi e o que era para ter sido; o que não foi e era para ser definitivo.  Eis as pontas que unem tudo: o desejo impossível do regresso e o terreno possível em que a vida floresce. 

PEDRO MEIRA MONTEIRO é professor de literatura brasileira em Princeton 

AZUL - CORVO
AUTORA Adriana Lisboa
EDITORA Rocco
QUANTO R$ 28 (224 págs.)
AVALIAÇÃO ÓTIMO
   





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