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Lendas da terra do sol nascente

Publicada por Marsílea Gombata no Jornal do Brasil em 28.06.2008.

Uma tartaruga leva um pescador ao fundo do oceano para conhecer o palácio da Princesa do Mar, filha do Rei Dragão. No caminho, passam "por cardumes de peixes-espada, por pequenos e delicados cavalos-marinho, por sardinhas e golfinhos, e por águas-vivas transparentes". A riqueza visual presente em A história de Urashima Tarô, recontada pela escritora carioca Adriana Lisboa, é marcante em todo o seu recém-lançado Contos populares japoneses. No livro infanto-juvenil, os seis contos que o compõem carregam, sob o cuidado da autora, descrição simples mas ricas imagens.

Todo universo lendário de um Japão marcado pelo tradicionalismo religioso do xintoísmo e budismo, assim como elementos diferentes dos brasileiros – como tartaruga marinha, dragão, lenhador, bolinhos de arroz e neve – mostram-se presente em seu segundo infantil (Adriana estreou no gênero há dois anos com Língua de trapos).

Quando esteve no Japão, em 2006, para sua pesquisa de doutorado sobre o poeta do século 17 Matsuo Bashô – que deu origem a seu romance Rakushisha (2007) – a escritora trouxe de lá livros de contos para seu filho Gabriel, hoje com 10 anos. As lendas japonesas, garante, envolveram-na completamente e resultaram no trabalho de pesquisa para a composição do Contos.

Diferenças

A sua primeira experiência de recontar fábulas nipônicas foi estimulada pela sensível percepção da autora que aponta diferenças em relação às histórias ocidentais:

– As nossas parecem ter finais moralistas e mais trágicos, enquanto as japonesas procuram defender o perdão e a compreensão – observa. – Além de serem célebres no Japão, são das que mais gostei e pensei que seria bacana trazê-las ao público brasileiro.

O primeiro conto do livro, "A história de Urashima Tarô", relata a aventura de um jovem e bondoso pescador que embarca em uma irreversível viagem ao fantasioso fundo do mar. "Chapéus de bambu" tenta passar a mensagem de que ajudar o próximo sem esperar nada em troca é o melhor meio de ser recompensado divinamente. "A mulher de neve" trata de uma lenda sobre uma mulher que detém o poder da vida e da morte, e, ao lado de "O grou", toca na importância de se cumprir a palavra dada a alguém.

Em "A chaleira da sorte", um texugo que se transforma em vasilha para aquecer chá mostra que nem tudo é apenas aquilo que parece ser. "A história de Momotarô" traz fantasia à saga de um menino que nasce de um imenso pêssego com a missão de combater o mal. Para este, a autora optou por uma versão em que o herói espanta o mal em vez de eliminar seus inimigos.

– Preferi ficar com esse final, pois tem mais a reflexão que eu buscava – lembra. – O ingrediente da punição, de muita crueldade, não está presente com a mesma força nas narrativas japonesas como é nas ocidentais. Quis preservar isso.

O tom equilibrado e direto com o qual Adriana escolhe recontar as histórias é nítido e dá o seu toque às lendas nipônicas: "Havia uma amizade profunda entre o texugo mágico, o funileiro e sua esposa. Estes gostavam mais e mais de seu pequeno amigo a cada dia que passava, não tinha limites a gratidão pelo serviço que Bunbuku lhes estava prestando". Nunca deixando de lado a fantasia própria da infância: "O que viram os surpreendeu bastante: lá adiante, no caminho, seis vultos iluminados pela luz da lua, cinco deles usando chapéus de bambu e o último, menor, com um lenço amarrado na cabeça, se afastavam de sua casa, desaparecendo em seguida atrás da colina".

Mas o que de tão especial trariam os ensinamentos das fábulas nipônicas aos leitores daqui?

– Existem certos valores muito presentes nesses contos – ressalta. – Se analisarmos um por um, veremos que uma das características mais presentes é a questão da confiança e as conseqüências trágicas de quando se trai isso.

A magia, então, se desfaz, como vemos em "O grou" ou "A mulher da neve": "E eu disse que não contasse a ninguém. Agora você traiu minha confiança e merece morrer de uma forma terrível, como prometi! Mas não posso matá-lo, Minokichi. Também não posso mais ficar, porque você quebrou o encanto".

Em seu caminho, Adriana tem engatilhados dois outros livros que estão praticamente prontos. Trata-se da novela Como escrever uma história de amor em Paris – fruto do projeto Amores Expressos, em que em 16 autores viajaram a capitais do planeta com a missão de voltar com uma história de amor – e A sereia e o caçador de borboletas, infantil ilustrado por Rui de Oliveira, que foi seu parceiro em Língua de trapos.



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