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DESENTRANHAMENTO DO COTIDIANO
Rui Veiga

Publicado originalmente na Gazeta Mercantil em dezembro de 2004

Quarto livro da carioca Adriana Lisboa, "Caligrafias" reúne 38 pequenas narrativas, escritas ao longo dos últimos oito anos. Trata-se de coletânea de múltiplos gêneros literários: crônicas, poemas em prosa e contos. Apesar dessa diversidade de produção, um tema comum une os textos: a preocupação da escritora com as relações cotidianas e seus espaços habitáveis, tanto os individuais quanto os coletivos

A escritora costuma dizer que esses textos são fendas que se abrem em seu dia-a-dia, não de uma forma particular, exclusiva de sua vida pessoal. Para ela, são feixes de luz com foco na vida do indivíduo urbano, esteja ele trancado em casa ou no coletivo de ruas, praças, alamedas, estações de metrô ou rodovias. A proposta de Adriana é se comunicar diretamente com o ser humano em seu todo, assim como definira Clarice Lispector em sua famosa última entrevista, concedida a Júlio Lerner na TV Cultura de São Paulo em 1978. Clarice, ao responder sobre quais dificuldades encontrava para escrever para o leitor adulto, disparou: "Quando me comunico com o adulto, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma, aí é difícil, não é?".

Manuel Bandeira costumava externar que o poeta ao escrever desentranha de si todas emoções represadas nele mesmo, em sua intimidade. Para ele, o ato de desentranhar a palavra é o momento mais difícil na elaboração lírica. Adriana Lisboa expõe o mais recôndito de si. Abre seus sentimentos, suas dores, sua vida diária e seu próprio pensamento. E o faz de forma não narcisista, não se coloca em primeira pessoa. Diferentemente, a escritora, de modo maduro, amplia os horizontes de suas narrativas, por meio das pequenas frestas de conexão, que estabelece entre os múltiplos elementos corriqueiros, que podem ser um simples olhar para insetos que convivem conosco em nossas casas, como também entender a complexidade do homem do final do século XX e do início deste novo tempo. O olhar da escritora é vasto e abrange aqueles que ocupam este espaço urbano contemporâneo com suas atribulações, opressões, contradições, alegrias e emoções.

Ao procurar desentranhar palavras, a autora vai ao encontro de outros nomes significativos da Literatura, que já exploraram essa senda, como Fernando Pessoa, Milan Kundera e a própria Lispector quando diz que: "A escrita, paradoxalmente, é uma atividade muito íntima, quase secreta, e delicada, mas que precisa sair no mundo para se completar." Simultaneamente, Adriana Lisboa explica que sua escrita surge exatamente sem planejamentos, num percurso diametralmente oposto ao dos chamados autores profissionais, assim definidos pelo escritor peruano José María Arguedas. Tanto é assim que os títulos das pequenas narrativas podem, à primeira vista, parecerem piegas, edulcorados: "Saudade", "Sonho", "Amor", "Tristeza" ou "Zen". Mas, deles emerge o vigor literário, a força de conteúdo e a riqueza de linguagem, que caracteriza a escritura de alguém que faz da Literatura uma ação estética densa, vislumbrando o horizonte mais profundo da alma humana, assim como os conflitos atuais que atravessa sob uma sociedade opressiva, globalizada.

É possível, e de certo modo razoável, que algumas ressalvas sejam feitas às narrativas contidas em "Caligrafias". Alguns dirão que, na comparação com seus três livros anteriores - em especial "Sinfonia em Branco" - alguns dos textos apresentados aqui não sejam tão profundos e os recursos narrativos usados sejam esteticamente menos enriquecidos. É real. Principalmente, quando se tem em vista que a própria autora considera algumas das narrativas autobiográficas à semelhança de alguns textos de Fernando Pessoa, entre eles "Autopsicografia". Falta-lhe um pouco mais de consistência ao realizar a interface cada vez mais presente entre Literatura e Psicanálise na concisão por ela almejada nesses textos mínimos.

Não lhe pode negar, porém, duas grandes qualidades. A primeira delas é ir contra a corrente predominante na literatura brasileira de hoje, na qual a estética do cotidiano passa obrigatoriamente pela violência e pelos espaços não habitáveis e devastados. É uma seara de terras desoladas. O mundo de Adriana é pleno e pródigo em contradições, figuras, alegorias e metáforas, como o dia-a-dia das metrópoles. A segunda é sobre a visão do outro, um trecho da narrativa: "Presente" chama a atenção. "O menino no sinal me pede uma esmola. Vê o meu rosto cansado, os meus músculos bradando urgências, a minha vida resfolegando, os meus sustos. Eu digo, que fujo de alguma coisa rumo a outra que está muito longe... O menino no sinal me dá uma esmola: seu sorriso." Esta passagem do pequeno texto é um libelo contra a intolerância e uma reflexão sobre o respeito recíproco, que deve existir na coexistência, nos espaços e entre indivíduos. O belo e o devaneio implantando-se em um momento, no qual a metrópole é vista por todos como terra de ninguém. A imagem da flor-de-lis crescendo em águas pantanosas.

O nome de Adriana Lisboa deverá a permanecer na literatura brasileira. Mesmo considerando-se que seus três livros anteriores, todos romances, tenham mais fôlego do que esta obra. Não se fala aqui de uma escritura realizada por mulheres, dessa literatura classificada como feminina, como é costume se rotular entre os círculos da crítica, exatamente como ocorre à época do lançamento de "Sinfonia em Branco". Talvez a própria Adriana recuse essa classificação arbitrária. Seu estilo requintado, construído a partir de estruturas narrativas sofisticadas, situam-na como autora de primeira linha, sem as prévias, e medíocres, definições de "nova literatura" ou "literatura feminina". Em relação a Adriana Lisboa, o ideal é referir-se a ela com a frase cardinalícia de José Saramago, usada por ele na cerimônia de entrega, em Lisboa, do prêmio batizado com seu nome, conferido à brasileira por "Sinfonia em Branco": "Temos escritora!".

Rui Veiga




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