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FAVORÁVEIS INFLUÊNCIAS NA ESTRÉIA
Elaine Pauvolid
Publicado no Jornal do Brasil - Caderno Idéias, em 04.09.1999
Adriana Lisboa ecoa os mestres hispano-americanos, mas mostra segurança
Os fios da memória, primeiro romance de Adriana Lisboa, é imensamente rico. Narra a história de uma mulher jovem imersa nos jardins e na biblioteca de sua casa, afastada do resto do mundo durante dezoito meses e debruçada sobre os diários de seus antepassados. A personagem constrói através da leitura dos manuscritos, de sua memória particular e de sua sensibilidade um mundo novo onde se insere como sujeito.
Lendo os diários, a protagonista, Beatriz Brasil, pensa o Brasil e reflete sobre questões filosóficas. Encontram-se marcas de Clarice Lispector pela proximidade da escritura de Adriana Lisboa com um ensaísmo filosófico, característica marcante da escrita de Lispector. Em Adriana a preocupação histórica a aproxima de outro nobre escritor, José Saramago. Mais uma semelhança com o prêmio Nobel refere-se à linguagem próxima à do conto oral, concedendo à narrativa a estrutura melódica desta tradição.
Adriana Lisboa já demonstra características individuais através da mestria em compor quadros carregados de sombras e movimento. Vê-se talento, ainda, na maneira como intercala questões vividas por uma jovem moderna e os questionamentos de uma jovem baronesa do Brasil do Império, sem atrapalhar o texto com afetação. O livro, escrito em segunda pessoa do plural, reforça a condição de "texto-memória" a vasculhar 168 anos de história. Assim como transcreve o passado, Adriana registra os costumes contemporâneos; é o retrato, no que uma fotografia pode ter de arte, de atemporal.
O baiano João Ubaldo Ribeiro também é vislumbrado. Os leitores de O Feitiço da Ilha do Pavão verão em Catarina (ancestral de Beatriz) a similitude com a moça que não proferia a "expressão-fetiche": "a ela sem pena!". As duas personagens se aproximam: revolucionárias, libertárias, profanas e santas em um jogo de verso e reverso muito presente no livro.
O relato fantástico, característico de Jorge Luis Borges, está presente em Os fios da memória através do entrecruzamento de passado, presente e futuro: "...e voltemos mais uma vez nossos rostos para aquele porta-retrato de metal, de dentro de cujas molduras espreitam os olhos vivos de Orlando... já quase posso tocá-lo." Orlando pode ser o futuro filho de um futuro marido.
Percebe-se o único retrato mencionado na obra emoldurado de prata e onde se encontra a ancestral de Beatriz, Catarina. Nos olhos do passado, o futuro se atualiza em uma manobra às avessas do que ocorre no conto O cativo, do escritor portenho. Neste texto o filho, há muito perdido, parece reconhecer os pais através de um vôo ao passado. O autor finaliza: "Eu quereria saber o que ele sentiu naquele instante de vertigem em que o passado e presente se confundiram; quereria saber se o filho perdido renasceu e morreu naquele êxtase ou se, pelo menos, como uma criatura ou um cão, conseguiu reconhecer os pais e a casa."
Tomando o leitor como co-autor à maneira de Borges, podemos ver em Manoel Brasil (outro ancestral de Beatriz) uma referência a mais ao escritor célebre, sendo o personagem poeta e cego. Por sua vez, Beatriz na intimidade de sua biblioteca e imersa em suas memórias lembra a forma como viveu o poeta argentino. Presente está também a literatura mágica do colombiano Gabriel García Márquez. A não corrupção do cadáver de Catarina, fatos sobrenaturais e mestiçagem exótica remetem-nos ao Nobel de Literatura de 1982. Com um primeiro romance recheado de tão favoráveis influências e com o despontar de contribuições próprias, Adriana Lisboa começa prometendo render bons frutos.
Elaine Pauvolid é escritora.
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