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FICÇÃO, PASSAPORTE PARA PASÁRGADA
Cíntia moscovich

Adriana Lisboa lança "Um Beijo de Colombina", livro que dialoga com a poética de Manuel Bandeira.

Primeira brasileira a receber o Prêmio José Saramago, instituído pela Fundação Círculo de Leitores, de Portugal, a carioca Adriana Lisboa chega a seu terceiro livro escrevendo - muito bem escrito - seu nome de estrela na disputada constelação das letras nacionais.

Em Um Beijo de Colombina, Rocco, 138 páginas, R$ 22,50), a autora esbanja vigor narrativo, dando-se ao luxo de dialogismos com a obra poética de Manuel Bandeira.

Aos 33 anos, formada em Música - seu instrumento do coração é a flauta transversa -, carreira que abandonou em prol do mestrado em Literatura Brasileira e da ficção, trabalhando como tradutora, Adriana recebeu o apoio do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros da Fundação Biblioteca Nacional para concluir seu mais recente romance.

Em Um Beijo de Colombina, a autora conta a história de um jovem professor de latim que tenta entender a morte, tão inesperada quanto misteriosa, da namorada, a escritora Teresa, que morreu afogada no litoral fluminense.

Valendo-se do recurso à metalinguagem (uma das interpretações possíveis é a de que lê um romance ao mesmo tempo em que está sendo escrito), a obra dialoga com a lírica do poeta Manuel Bandeira - cada capítulo recebe um título de um poema do livro Estrela da Vida Inteira. Narrado em primeira pessoa, a misteriosa e ambígua história - Teresa é bissexual, seu corpo nunca foi encontrado, e depois de sua morte ela, que era uma escritora promissora, atinge a consagração -, o texto consegue a proeza de conceder jeito de poesia a uma prosa que é contemporânea, sem que isso signifique fazer concessão à precisão e à elegância da frase.

- Queria fazer na ficção o que Bandeira fez na poesia: ser de uma simplicidade cheia de emoção, mas sem transbordar - afirma a autora, explicando que Um Beijo de Colombina representou um exercício de contenção e essencialidade.

Autora planeja trabalhar com haicais de Matsuo Bashô
Trabalhando a linguagem com cuidados de artesanato, Adriana, que também é autora de Os Fios da Memória (1999) e Sinfonia em Branco (2001), livro que lhe valeu o Prêmio José Saramago, chega ao requinte de compor cenas de intenso erotismo usando apenas a ambiência e a sugestão de detalhes. Estudiosa do zen-budismo, os projetos futuros dessa carioca residente em Teresópolis incluem trabalhar no doutorado em Literatura Brasileira com os haicais de Matsuo Bashô - num misto de literatura e ensaio acadêmico.

Perguntada por que escreve - uma das questões feitas à escritora-personagem -, Adriana cita José Saramago, ao responder a mesma pergunta:
- Já perguntaram a um pássaro por que ele canta?

Trecho
Apanhei o pequeno e afiado cone de vidro, joguei pela janela e logo me arrependi, porque outra pessoa podia acabar se ferindo. Mas o mais provável era que a chuva fosse levá-lo dali, enterrá-lo no jardim de alguém, e dali a cem anos (provavelmente durará mais do que isso - eu já tinha lido, num desses panfletos ecológicos, que uma garrafa de vidro levava um milhão de anos para se desfazer) o caco de vidro seria somente uma pequena memória pulsando no centro da terra. Memória de um copo, memória de um corte, cadáver de vidro - um pequeno fóssil que nenhum arqueólogo viria a desenterrar. Marisa chegou com o jornal e nuvens no rosto. Já estava escuro. Tínhamos combinado de ir naquela noite ao cinema. Já estava escuro.



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