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MARCA PÁLIDA NA PAREDE
Wilberth Claython F. Salgueiro

Publicado no Jornal do Brasil - Caderno Idéias em 26.05.2001

Adriana Lisboa fala de memória e tempo em romance que valoriza o amor

Adultério, assassinato, estupro, homossexualismo, toxicomania: estes são alguns dos ingredientes que se reúnem para compor a trama de Sinfonia em branco, de Adriana Lisboa. Um leitor precipitado, porém, há de pensar que se trata de um romance de linhagem policial ou algo similar, em que prevalecem a ação incessante e peripécias mirabolantes. Não.

Já no quarto parágrafo da história, deparamo-nos com uma frase que dá o tom - denso, poético, digressivo - de toda a narrativa: "O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede". Antecipam-se aí os temas de fundo do romance: o amor, a arte, o corpo, a memória e o tempo. A escrita romanesca, convergindo ficção e pensamento, se fará na forma de excursão, "palavra preciosamente ambígua", no dizer de Roland Barthes.

O enredo, qual um puzzle, vai aos poucos se oferecendo ao leitor paciente, aquele que aprecia, eroticamente, as curvas da taça antes de sorver o vinho. Inicia-se o romance pelo capítulo "Uma borboleta, uma pedreira proibida": "Ainda havia algum tempo antes que ela chegasse". Quem seria ela? Quem está contando a história? Quanto tempo resta para que "ela" chegue? Por que a pedreira é proibida?

Há um trio - Tomás e as irmãs Clarice e Maria Inês - em torno do qual giram os outros personagens (pais, parceiros, amigos...), ora na pacata e rural Jabuticabais, ora nas cosmopolitas Veneza e Rio de Janeiro. O tempo, necessário à montagem do quebra-cabeça, passeia ao passado, traz novas peças, pistas que se acumulam (nesse sentido, inscreve-se algo de policial no romance). Fatos aparentemente gratuitos retornarão, à frente, com força imprevista, numa forma sutil de esclarecimento. Vamos a dois exemplos, vale a pena.

O primeiro diz respeito ao próprio título, Sinfonia em branco (que também nomeia um dos capítulos). Corridas algumas páginas, o narrador, que conhece intimamente a vida de cada personagem e por isso pode "liberar" as informações ao bel-prazer da construção calcada na ambigüidade e no suspense, fala por Tomás, como que continuando a frase inaugural: "(...) Aquela que ele iria reencontrar no dia seguinte. Uma mulher que a memória sempre vestia de branco e de juventude." Ficamos sabendo, então, que a mulher esperada é Maria Inês, por quem Tomás, anos antes, tivera uma paixão desmesurada e parcialmente correspondida, sendo preterido por um João Miguel, primo de segundo grau da amada.

Tomás descobre, sem saída, que "às vezes o amor se alimenta de sua improbabilidade". A imagem da musa jovem e de branco, talvez a mais recorrente do romance, retorna sempre em diferença, posto que o tempo transforma implacavelmente os corpos e os sentimentos. Daí que o amor, aquela "marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede", desbota, deixando lugar para novas molduras. A propósito, o narrador, em doses homeopáticas, revela exatamente de que quadro se trata, chegando mesmo em belíssimas passagens a descrever "A garota de branco - Sinfonia em branco nº 1", de Whistler. Maria Inês, para Tomás, passa a ser aquela pintura, uma "garota com a expressão reflexiva, o rosto emergindo sólido da moldura dos cabelos escuros. Pálida. As mãos quase tão brancas quanto o vestido longo (...)". Com o "quadro removido", entretanto, eis que surge Clarice.

Clarice - e este é o segundo exemplo de como um fato aparentemente gratuito, numa estrutura ficcional bem amarrada, transforma-se em elemento de decisiva significação - mantém com sua irmã, Maria Inês, um segredo familiar inviolável, que se dissimula até as últimas páginas da história, insinuando-se levemente aqui e acolá. Ambas guardam em cúmplice silêncio a memória de cenas - uma, em especial - da infância, ao lado dos pais Afonso Olímpio e Otacília. Como num ritornelo, certas imagens regressam imperiosas, em tácita luta de desrecalque.

Tal como a imagem da mulher jovem e de branco ganha um contraponto na pintura de Whistler e, posteriormente, na imagem do quadro (do amor) que se remove, as imagens de uma cena da infância se misturam às lembranças das sementes de cipreste espalhadas pelo chão. Aqui, há uma sublime equivalência entre as reminiscências pulsantes de Maria Inês e de Clarice, ao ponto de esta, sempre pela voz do narrador "espectador", sentir-se esvaindo: "Alguma coisa se quebrara dentro dela sem fazer ruído. Ela mesma se quebrara dentro dela: a alma dentro do corpo. A Clarice dentro da Clarice. Ela se sentia tão tênue que em uma lágrima poderia morrer, escoar, água dentro do ralo do chuveiro." Atente-se, ainda, que "cipreste", simbolicamente, pode indicar "morte, luto, dor" - suma do abalo que as pequenas irmãs levam para o futuro, arquitetando, na consciência do segredo fraternal, a fatal vingança.

Sinfonia em branco partilha com Os fios da memória, primeiro romance da escritora, mais do que um visível apreço pela firme construção de genealogias e um carinho singular na constituição dos personagens, mesmo os ditos secundários. Ambas as histórias não cedem a modismos pós-modernos, como o excesso de jogos intertextuais ou metaficcionais, tão mais explícitos quanto meramente ornamentais, não buscam experimentalismos banais, tampouco optam por finais felizes, reconciliando-se com o leitor lacrimejante. Em que pese a coincidência do nome de um dos personagens, Sinfonia em branco faz ressoar algo de Clarice Lispector, na estima pelo alto valor do amor e na precisa observação de detalhes do cotidiano e dos costumes sociais, e de Virgínia Woolf, na criação de uma ambiência que faz dialogar a trama ficcional e o gosto pela reflexão, num tom, já referido, poético, denso e especulativo.

Vozes em sinfonia, Adriana Lisboa faz desfilar na escrita, com elegância e sensibilidade, seus personagens e suas crises, tão próximos de nós que nos sentimos tragados, nos entregamos, nos revoltamos, vibramos - ao percebermos, enfim, que vida e imaginário se cruzam tanto que não sabemos mais quando uma, quando outro.

Wilberth Claython F. Salgueiro é poeta,
professor de Literatura Brasileira da UFES
e autor de Digitais.



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