|
MEMÓRIAS DA DOR
Beatriz Resende
Publicado na revista virtual no., em 03.05.2001.
Adriana Lisboa fala de memória e tempo em romance que valoriza o amor
Parece-me já poder afirmar, com alguma certeza, que a década de 2000 revela-se um momento de especial riqueza na nossa literatura. Vencido o luto deixado pelos anos de chumbo, a literatura praticada por jovens escritores vem apontando para um período de fertilidade que merece atenção. A ficção se renova e o romance surge como o gênero que reencontra suas possibilidades como manifestação nobre de uma literatura. Têm surgido romances para todos os gostos e a primeira ou segunda obra dos ficcionistas revelados trazem logo surpresas bastante agradáveis.
No entanto, uma lacuna permanecia: a da narrativa praticada por mulheres. Depois das grandes damas dos anos 60, 70 e mesmo 80, que ocuparam com força o lugar autoral em nossa ficção, parecia que novamente a preponderância quase total voltaria aos escritores homens. Tenho me perguntado por onde andam as mulheres que não têm escrito como prometiam? As que já se tinham afirmado continuam, é certo, a escrever. Mas e as novas, por onde andam? Dirigindo empresas e fazendo política? A verdade é que, na ficção, a presença de jovens autoras, escritoras de início de carreira não tomava a importância que acontece na poesia, onde um grande exemplo é a excelência dos poemas de Cláudia Roquette-Pinto.
É, pois, com alegria especial que saúdo a publicação de "Sinfonia em branco", segundo romance de Adriana Lisboa. Reconheço que foi com certa desconfiança que recebi o livro. A jovem e inteligente Adriana Lisboa é tão suave e, sobretudo, tão bonita, que parecia uma injustiça com o resto da categoria que fosse também uma escritora de importância. Pois fiquem sabendo que é. "Os fios da memória", de 1999, já revelava uma narradora tão segura na construção do texto de qualidade quanto imaginativa. Mas certo tributo ao romance histórico deixava o romance um tanto atado aos pressupostos desta espécie literária.
Em "Sinfonia em branco", Adriana, já narradora pronta, retoma a força da memória como elemento de construção dos personagens. Ou melhor, das personagens, pois é em torno de duas mulheres que a narrativa se constrói. Duas meninas, irmãs, no espaço de fazenda do interior; depois jovens que saem de casa rumo ao Rio de Janeiro para poderem ter segurança, uma, liberdade, outra e que se transformam em mulheres maduras que tomam rumos opostos. Clarice, a que tentou cortar os pulsos, artística e intimidada. Maria Inês, prática, disposta a desafiar o mundo e tomar da vida tudo que ela possa lhe dar. Mas é Maria Inês quem inspira a imagem de um quadro de Whistler: "A garota de branco" ou "Sinfonia em branco nº 1", cerca-se de música e inspira paixões. Já a Clarice, poucos prazeres parecem estar destinados, incapaz de conquistar, por ela mesma, mais do que a própria destruição. Duas mulheres a que ensinaram sobretudo as proibições, a necessidade de se calarem. Irmãs que um segredo une e afasta.
A citação de Marguerite Duras na abertura do romance, afirmando que é inútil chorar e por isso mesmo é preciso chorar, não é gratuita. Como em Duras, há, por todo o romance, uma dor contida mas fortíssima e os sentimentos são tão intensos que parecem possuir materialidade. "Chegaria uma hora em que ela não suportaria mais e racharia como uma represa defeituosa... Descascaria como reboco de parede".
As memórias que aparecem e reaparecem são cercadas de musicalidade toda especial. É a arte que acompanha a escrita, marca dores e desejos, acompanha as cores que determinam os espaços, divide com os cheiros a capacidade de acionar a memória. "A poesia da visão", diz a autora, lembranças de "uma mulher que a memória sempre vestia de branco e juventude", de um velho que por castigo "bebia sua solidão", da irmã angustiada "brincando de girar a aliança no dedo emagrecido pelo frio", de um homem "de olhos transparentes passando o tempo a andar na estrada empoeirada", seres que se movem nos espaços e tempos onde "o amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede".
Por todo o romance, os sentimentos quase podem ser mastigados e as lembranças têm cores e cheiros nem sempre agradáveis.
A sofisticada erudição que atravessa a narrativa, construída sempre com uma segurança que não permite que nenhum detalhe se perca, nenhuma frase, por mais bela, seja gratuita, não deve, porém, deixar a ilusão de que se trata de uma narrativa que passeia por suavidades. A história das duas irmãs cujos abraços "tentavam ser páginas em branco. Abraços alvos, lisos, virgens", é também uma história de violações, de ódios contidos e de mortes desejadas. É a história das muitas formas de tortura a que mulheres as mais diferentes - a menina negra assassinada pelo sedutor, a adolescente sufocada pelo assédio, as mulheres dependentes ou independentes, as amadas e as abandonadas - são submetidas. Histórias que não se consegue esquecer.
Um romance de mulher, uma escrita de mulher, histórias de mulheres. O branco não é mais ausência e a sinfonia é toda feita de silêncios.
Beatriz Resende é professora da Escola de Teatro da UNIRIO e
pesquisadora do PACC/UFRJ e do CNPq. Publicou, entre outros,
Cronistas do Rio (Rio: José Olympio, 1995).
|