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NA CONTRAMÃO PELA AVENIDA BRASIL
Rogério Pereira
Publicado originalmente no jornal Rascunho em fevereiro de 2004
Adriana Lisboa afasta-se do neonaturalismo que tomou conta da literatura brasileira
Adriana Lisboa é uma tranqüila motorista a dirigir na contramão pela balbúrdia da avenida Brasil - este caminho vigiado por Cérbero entre as varizes do Rio de Janeiro e suas redondezas. Dirige calmamente a contemplar a paisagem, a compor situações possíveis, a espantar-se com a velocidade dos caminhões, carretas, carros, motocicletas, cavaleiros que vêm desarvorados em sua direção, carregados de textos rápidos, violência urbana, sexo, falsas angústias existenciais, fragmentação, internet ad infinitum. Adriana Lisboa não se importa de estar na contramão. Sabe que não será multada, não infringe a lei, cria a sua própria lei, desdenha os modismos impostos, ou criados para serem impostos. Olha com enfado os apressados seguindo para o outro lado, para a praia talvez. Está praticamente só no trajeto escolhido. Olha para trás e vê poucos, olha para frente e, além da manada ensandecida, vislumbra mais alguns fazendo o mesmo trajeto que o seu. São solitários em direção ao sol ou ao crepúsculo de mais um dia. No porta-malas, carrega versos de Manuel Bandeira, contos de Borges e Cortázar. Sorri quando um caminhão arranca-lhe o retrovisor direito. Esquece-se ao volante e segue como uma estranha.
É a partir desta imagem - um tanto urbana, diga-se - que busco ler a obra de Adriana Lisboa. Aos 33 anos (completa 34 em abril), com três romances publicados, esta carioca teria tudo para estar cravada na chamada Geração 90, esta que aí está a fazer ruidosos estardalhaços. Por quê? Os motivos podem não ser os mais concretos, mas Adriana viveu boa parte de sua vida no Rio de Janeiro, esta mistura de paraíso e inferno, vive nos meios literários e sua formação (?) literária dá-se nos últimos cinco anos, mais exatamente em 1999, quando lançou Os fios da memória. Ou melhor, Adriana simplesmente poderia entrar na onda urbana e criar sobre um universo que risca a sua pele todo o tempo. Mas este mundo - pelo menos este que aí está a ser criado ou apenas reproduzido pelos novos autores brasileiros - interessa muito pouco a Adriana Lisboa (leia entrevista a seguir). A autora rejeita, ou não dá muita bola, ao neonaturalismo que assola a literatura brasileira contemporânea.
Nem mesmo a derrapada deste novo romance, Um beijo de colombina - já falarei com calma sobre -, é capaz de tirar Adriana Lisboa de um caminho dos mais interessantes e aprazíveis. Ao adentrar sua obra, o leitor logo identificará que está diante de uma autora diferente, envolvente, capaz de conquistar apenas com o poder do ritmo imposto às palavras, do rumo da história, da construção dos personagens, sem malabarismos lingüísticos, macaquices estereotipadas ou profusão de imagens que invocam todo o tempo sexo, violência, existencialismo barato. Adriana Lisboa é uma grande contadora de história, construtora de dramas, de enredos que envolvem, causam prazer no leitor (coisa rara de acontecer ao percorrer a maioria dos novos autores), fazem pensar e divertem. Enfim, encara a literatura como arte, como um vasto campo para a criação de mundos, mesmos estes que já estão aí a nos açoitar o corpo. Mas se Adriana se afasta dos "grandes temas atuais", a que se dedica então? Ao amor e à morte. Piegas, hão de vociferar os detratores. Mas as inquietações universais - amor e morte - tornam-se matéria cara em suas mãos. A pieguice, labirinto tão fácil de perder-se, é domada com segurança e frases que embalam a leitura, feita numa aparente calmaria, que muitas vezes se transforma em tempestade, em destruição.
As mulheres estão no centro da obra. A partir delas e em direção a elas tudo acontece. Os fios da memória - cujo título carrega outra arma da autora: a memória - é a estréia de uma escritora já madura. Nem mesmo os traços históricos, irrelevantes, acredito, são capazes de ofuscar a trajetória da família Brasil, iniciada no início do século 19 com Maria e Eustáquio Miranda, até culminar em Beatriz Brasil, narradora de uma história transbordante de amor e da falta dele, de desilusões, frustrações, dor na carne e na alma. Tudo narrado numa prosa límpida e segura. Poética, digamos, para desespero de alguns. Os fios da memória é pavimentação para se chegar a Sinfonia em branco, romance com espaço garantido na literatura brasileira, ganhador do prêmio José Saramago, em 2003. Em Sinfonia em branco, Adriana Lisboa exerce sua arte com a segurança de quem sabe que não vai se perder ao aventurar-se por uma floresta desconhecida. Sabe que caminhos tomar, quando descansar, quando se alimentar, não age com excessos, está no limite, caminha com leveza pela mata cerrada. Logo no início do romance, abre-se a janela e acariciam-nos as palavras:
"A tarde abafada de verão descolava-se da estrada sob forma de poeira e se espreguiçava no ar. Tudo estava quieto, ou quase quieto, e mole, inchado de sono. Um homem de olhos muito abertos (e transparentes de tão claros, coisa que não era comum) fingia vigiar a estrada com seus pensamentos. Na verdade, os olhos mapeavam outros lugares, vagavam dentro dele, e catavam cacos de memória como uma criança que colhe conchinhas na areia da praia" (p. 9)
Ao neonaturalismo da literatura brasileira contemporânea tal trecho soa como um insulto. Em tempos diabolicamente rápidos e encharcados de sexo e violência, frases como estas soam "anacrônicas". É aí que reside a grandeza de Adriana Lisboa - não se rende ao fácil e corporativo, atreve-se por uma trilha solitária. Faz uma literatura de diversas leituras, com muitos cortes e compreensões; e a linguagem poética marca o passo. Quando digo que o amor e a morte guiam a obra de Adriana, acompanha-os a desilusão e a tristeza, como não poderia ser diferente. No emaranhado, sobressai-se também a família, esta monstruosa organização e suas idiossincrasias. Em Sinfonia em branco, a família é um turbulento mundo, constituído pelas irmãs Clarice e Maria Inês - seus amores, suas desgraças -, pelo detestável pai, Afonso Olímpio, e pela subserviente Otacília, a mãe. É entre estes personagens que a história ganha vida, e morte. Há também o embate entre o campo e a cidade, tema outrora tão caro à literatura. Não é o caso de mergulhar na história e sua construção, até porque o espaço não permite. Mas anotem: Sinfonia em branco é um grande romance, para ser lido e relido, com um novo encantamento a cada leitura.
A derrapada
Seria tarefa das mais fáceis definir Adriana Lisboa como apenas mais uma escritora com certo talento, caso partíssemos de Um beijo de colombina, romance que acaba de ser lançado. Ao leitor de Sinfonia em branco (acredito que muitos ainda o lerão), um aviso: a decepção pode ser grande. Esperava deste romance mais um excelente livro; é apenas razoável, com alguns acertos e muitos equívocos. O ponto de partida é animador para qualquer amante da literatura: o romance é escrito a partir de alguns poemas de Manuel Bandeira, o maior menor poeta do mundo. Ao leitor de poesia, um alento. Ao leitor de romance, um alento. Ao leitor comum (este que lê sem método e, quem sabe, é entre as "raças leitoras" a mais feliz), um alento. Estamos diante da capacidade criadora de Adriana Lisboa - provada e comprovada - e da poesia de Manuel Bandeira. O problema é que o espetáculo prometido fica muito longe do resultado. Logo no índice, têm-se os capítulos nomeados com 14 belíssimos poemas de Bandeira, como Maçã, Cantiga, Poema do Beco, Pierrot Branco..., todos de Estrela da vida inteira.
A partir deles vamos conhecendo a história de amor de Teresa e João. O narrador é João (ou façamos de conta que é), portanto, uma voz masculina. João é um professor de latim. Teresa é uma escritora de sucesso, que acaba morrendo afogada (ou façamos de conta que acaba) no mar de Mangaratiba. João não é escritor e sabe suas limitações, mas vai mostrando como era (ou é) Teresa. O amor que não se afasta nem depois da morte, a reaproximação com Marisa, a antiga namorada. O grande problema é que tudo é muito rápido; falta intensidade às descrições (tudo bem, se levarmos em consideração a leveza poética de Bandeira, mas intensidade e leveza são grandes amigas); o belo ritmo de Sinfonia em branco não se ouve em Um beijo de colombina. O leitor fica desamparado diante da rapidez deste romance. Faltam-lhe as belas frases, a poesia a espreitar nas entrelinhas. A solução final para o romance é, senão previsível, forçada, pouco criativa. Este que era para ser lírico até os ossos, é magricela como um beija-flor, sem o charme deste. É certo que há toda uma declaração de amor à literatura e a Bandeira, com algumas discussões sobre o escritor e suas empreitadas. Mas a sensação é de falta, como um amor que pouco nos oferece quando mais precisamos dele. Apesar de tudo isso, Um beijo de colombina ganha um espaço entre os bons romances da nova literatura brasileira.
Mas mesmo quando o carro desliza para fora da pista, Adriana Lisboa segue à risca o seu trajeto. Precisa chegar a algum lugar. Não tem pressa. Vai embalada pelo ritmo escolhido. No rádio, a música é suave. Lá fora, alguns beija-flores tentam acompanhá-la. O barulho dos caminhões em sua direção é forte; ainda vão arrancar o outro espelho retrovisor. Adriana aumenta o volume do rádio e já não se importa com mais nada.
ENTREVISTA
Seu primeiro livro - Os fios da memória - é de 1999. Você tem apenas 33 anos [faz 34 em 25 de abril]. Se toda a discussão em torno de gerações literárias tiver algum sentido, poderíamos situá-la na chamada Geração 90. Mas não vejo seu nome e seu trabalho atrelados a ela. Você parece optar por um caminho literário muito oposto ao desta geração, que se caracteriza pela escrita rápida, pelo apego à discussão da violência e à vida urbana e também pela fragmentação do texto. Por que você optou por uma prosa poética e, digamos, "tradicional"?
Acho arriscado falar em geração. Essa é uma noção bem moderna, no sentido histórico do termo, e está atrelada à criação de grupos que sempre tinham algo a combater e levantavam uma bandeira específica. Foi o que caracterizou todas as vanguardas do século 20. Mas hoje isso me soa meio extemporâneo, e quando vejo aparecer um "grupo de escritores" eu de cara torço o nariz. Uma das boas conquistas da contemporaneidade é poder escrever livre de cartilhas e patrulhas ideológicas. Cada um segue o seu caminho, obedecendo a critérios muito mais individuais, e a crítica aí está para se esforçar em catalogar os resultados, se é que eles são catalogáveis. A minha escrita é desse jeito porque é o que eu gosto de fazer, por enquanto. Pensar na classificação de "tradicional" ou "vanguardista" nos remete outra vez para aquele mundo moderno, do novo pelo novo, do novo como juízo de valor, que já me parece ultrapassado. Porque fica a pergunta: é possível ser novo, em pleno século 21? Mais do que isso: é necessário? Quem busca uma suposta originalidade não está sendo extremamente ingênuo? É a impressão que tenho quando vejo certos autores brasileiros da minha idade querendo-se transgressores. Em primeiro lugar precisamos definir o que seja transgressão em pleno 2004. É falar palavrão? É escrever sexo explícito? É falar de violência? Óbvio que não. Talvez a única possível transgressão esteja no silêncio e na delicadeza.
Entre os novos escritores o que mais te chama a atenção? E quem são?
Não leio a produção brasileira contemporânea tanto quanto gostaria ou deveria. Tenho em casa certos autores que preciso ler com urgência, como o Amilcar Bettega Barbosa e o João Anzanello Carrascoza, por exemplo. Interessa-me muito descobrir o que as pessoas estão fazendo fora desse clichê "mundo cão" de violência-velocidade-superficialidade. Três autores que me despertaram muito interesse, exatamente por causa disso, foram a Cláudia Lage, a Daniela Versiani e o Marcelo Moutinho. Estou esperando as novidades deles.
Em Um beijo de colombina, lê-se: "Teresa poderia ter sido apenas essa pergunta. Uma pergunta bem simples, aliás". Que tipo de pergunta a tua literatura pretende responder?
Acho que a literatura, como a arte, não deve responder perguntas, mas apenas fazê-las. No meu caso, mais do que fazer perguntas trata-se de sublinhar determinadas coisas, falar de uma humanidade que é completamente contraditória, às vezes adorável, delicada, às vezes desprezível, cruel, tudo isso junto. Mas tenho tentado evitar as cores fortes, elas me agradam cada vez menos. Com a poesia de Manuel Bandeira eu aprendi que é possível associar afetividade, compaixão, poesia, sensualidade, simplicidade.
Pode-se fazer aproximações entre você (autora) e Teresa, protagonista de Um beijo de colombina. As semelhanças são grandes. De que maneira você busca dissociar o eu-narrador da escritora Adriana Lisboa?
Essa é uma pergunta natural e freqüente, mas a minha identificação é muito mais com o narrador da história do que com Teresa. É curioso, num certo sentido, que ela seja associada a mim, quando na verdade canaliza uma série de críticas ao sucesso. Não é uma personagem com quem eu simpatize muito. Gosto bem mais da Marisa, por exemplo. Mas o narrador de Um beijo de colombina e eu somos muito próximos. Não quis fazer autobiografia, jamais faria, mas ele tem muitas memórias que são literalmente minhas e o desajuste que sente era, num certo sentido, e por motivos completamente diferentes, o meu. Foi uma das coisas que me levaram a sair do Rio, apesar de todo o carinho que tenho pela cidade, e vir me esconder numa casa no alto da serra. Mas meus romances não são muito calculados, eu tenho pouca censura e costumo ser bastante honesta. Às vezes só me dou conta de certas coisas quando vêm as primeiras leituras e as primeiras críticas.
Como surgiu a idéia de escrever um romance a partir da poesia de Manuel Bandeira?
Durante o meu curso de mestrado em literatura brasileira na UERJ, me ocorreu escrever uma ficção em lugar de uma dissertação nos moldes acadêmicos. A idéia que tive foi a de uma escrita que comentasse outra, que se fizesse a partir de outra. Nessa época, li aquele colossal livro da correspondência de Bandeira e Mário de Andrade, editado pela Edusp, num curso com a Beatriz Resende, na UFRJ. Bandeira voltou à minha vida com força total, eu me reapaixonei, estudei a fundo sua obra poética e em prosa, e o resultado desse mergulho foi o livro.
Por mais lugar-comum que isso possa parece, roubo uma pergunta que está na página 99 de Um beijo de colombina. A resposta (ou tentativa de) a esta pergunta talvez seja uma grande perda tempo, mas vamos a ela: "Você escreve por quê? Por necessidade, algum movimento interno Porque acredita em alguma coisa? Porque não acredita em nada? Ou é subjetivo, cem por cento?"
Subjetivo cem por cento, como diria, e disse, Teresa. Mas para desenvolver o "indesenvolvível": tudo na minha vida acontece por via das palavras. Causa ou conseqüência disso, fiz nove anos de análise freudiana. Quando vejo uma paisagem bacana, penso logo em como descrevê-la com palavras. Por isso a música não deu tão certo na minha vida. Eu escreveria mesmo que não pudesse publicar, como escrevo desde os nove anos de idade. Mas na verdade todos sabemos que a manifestação artística, em qualquer área que seja, é uma necessidade humana desde tempos imemoriais e não deveria ser um privilégio de uma elite intelectual e econômica. A gente quer comida, diversão e arte. E literatura.
Em Sinfonia em branco, lê-se: "Não era uma mulher de muitas palavras, na verdade não gostava delas. Pensava, sem pensar, que eram traiçoeiras como um bicho que espreita sua presa, e quase sempre injustas". A palavra certa, o ritmo, enfim a composição literária, são um bicho que espreita a sua presa - o escritor? Ou são apenas fantasmas que rondam sem descanso o sono?
São um bordejar sem jamais chegar ao centro. É impossível obter das palavras a exatidão que queremos, mas continuamos tentando. Isso aproxima quem sabe o escritor do filósofo cético. O escritor não é como o niilista, que não acredita na possibilidade de se chegar a uma verdade e deixa de procurá-la, nem como o dogmático, que acredita que a verdade é a sua verdade. A verdade, ou a palavra justa, a palavra certa, talvez não exista, mas continuamos buscando, continuamos ensaiando. Céticos, com um sorrisinho oriental.
Nota-se claramente em seus romances uma grande preocupação com o ritmo, com a cadência das palavras. De que maneira a formação como cantora e flautista contribui para a sua literatura?
Meu ouvido pesa muito. E, além disso, trabalho como tradutora, de modo que estou acostumada a avaliar som, cadência, ritmo e cor das palavras. Sou uma verdadeira caçadora de cacófatos, aliterações, rimas internas e afins! Uma coisa ajuda a outra, sem dúvida. Ou atrapalha.
Nos três romances, você trava discussões a respeito da literatura: Os fios da memória tem a biblioteca e uma história sendo contada por alguém sem aspirações literárias; Sinfonia em branco traz constantes referências a Morte em Veneza, de Thomas Mann; e Um beijo de colombina apresenta uma surpresa literária ao fim. Por que essa preocupação em discutir ou apresentar questões literárias nos romances?
Não é uma preocupação, mas acabou acontecendo. No caso de Sinfonia em branco, não acho que a literatura ocupe um lugar assim tão importante, o livro de Thomas Mann é referido en passant. Mas nos outros dois simplesmente aconteceu, como está acontecendo com o próximo livro também, que é sobre Bashō, o poeta japonês do século 17... não sei se, no momento, consigo dissociar o escrever do escrever sobre escrever, ainda que em surdina, como um tema paralelo - e no meu ver sempre foi um tema pararelo, nunca central. É como se eu pudesse me dar a oportunidade de pensar no que estava fazendo na hora em que estava fazendo. Só isso, sem maiores pretensões.
O tema central - ou pelo menos o mais forte - de sua literatura é o amor ou a impossibilidade dele. Você acha que estamos condenados ao amor?
O amor faz parte daquela gama de sentimentos demasiado humanos, e sempre vem misturado com tanta coisa que por pouco não deixa de ser amor. Não estamos condenados ao amor, ele é o que nos salva.
Mas ao tratar do amor, a frustração, a dor, a desilusão impõem-se com muita força. A tristeza é outra sina a que também estamos condenados?
Sem dúvida, a vida é sofrimento, como foi dito há dois mil e quinhentos anos por um certo senhor Buda. Nossa vida é uma montanha-russa, estamos sempre insatisfeitos, mas paradoxalmente é isso que nos mantém vivos, pois morremos quando deixamos de desejar. Dores de um lado, paixões do outro, alegrias desmedidas de um lado, grandes desilusões do outro, e assim nós passamos, pedrinhas rolando no leito do rio. Não sinto tristeza diante desse quadro. Sinto que é possível ter uma calma curiosidade e uma alegre coragem, e seguir rolando.
De que maneira a finitude (a certeza da morte) interfere na sua produção literária, já que a morte também ocupa lugar de destaque em sua obra?
A finitude é algo com que todos precisamos aprender a conviver. A possibilidade do abandono, da aceitação de que todas as coisas são passageiras, temporárias, impermanentes, é uma grande e difícil conquista. Isso nos ajuda a, num certo sentido, levar este mundo menos a sério e, em outro, poder agir melhor enquanto nos encontramos nele. Esse é um tema espalhado por tudo o que eu escrevi até hoje. E também é uma espécie de mola propulsora. A finitude, que eu prefiro chamar de impermanência, nos ajuda a aproveitar o mundo e a abrir os olhos como o visionário Blake de Auguries of innocence, que escreveu: to see a World in a Grain of Sand/ And a Heaven in a Wild Flower/ Hold infinity in the palm of your hand/ And Eternity in an hour ([Para Ver um Mundo num Grão de Areia/ E um Paraíso numa Flor Silvestre/ Segure o Infinito na palma de sua mão/ E a Eternidade em uma hora). Daí o meu interesse pelas pequenas coisas da poética do Bandeira, pelo haicai de Bashō. Está tudo ali. E quando conseguimos encontrar a eternidade em uma hora, somos, com o perdão pelo paradoxo, temporariamente imortais.
Beatriz Brasil, em Os fios da memória, refere-se à biblioteca como um "mosaico de mistérios". Quais autores têm destaque no seu mosaico de mistérios?
Hoje em dia minha biblioteca do coração anda bem nipônica, cheia de haicai. Mas Bandeira está sempre lá, cadeira cativa. E tenho umas prateleiras VIP, são as prateleiras onde moram Borges, Cortázar, Marguerite Yourcenar, Rosa e Machado, que são os meus professores. Entre os escritores estrangeiros contemporâneos, tenho muito orgulho de ter na estante o Ian McEwan de Reparação, o Michael Cunningham de As horas, a indiana Arundhati Roy de O deus das pequenas coisas, o Nobel chinês Gao Xingjian de A montanha da alma e o Saramago de Memorial do convento e O ano da morte de Ricardo Reis. E a obra do João Gilberto Noll, do Sérgio Sant'Anna e do Rubens Figueiredo.
Entre os autores de sua preferência, você cita poucas mulheres. Você acha que ainda é possível (e válida) a distinção entre literatura feminina e masculina (também não podemos esquecer que há a literatura gay, negra etc.)?
Não acho válida a distinção porque ela é calcada em estereótipos. Para falar de literatura feminina e masculina, é preciso primeiro definir o que seja feminino e o que seja masculino. Então feminino seria o delicado, o suave, o poético, o yin? E o masculino, o viril, forte, o yang? Por esse padrão, a Patrícia Melo faz literatura masculina e o Barco a seco, do Rubens Figueiredo, é literatura feminina. E adotar essa distinção a partir de uma leitura "de conteúdo" (ou seja, literatura feminina é a que tematiza assuntos femininos, e assim por diante) me parece ainda mais empobrecedor. A literatura não se reduz à temática e não deve ser confundida com ela. Literatura é como, e não o quê.
Você acaba de ganhar o Prêmio José Saramago. Que importância tem esse prêmio para o seguimento de sua carreira literária?
Esse prêmio tem uma importância enorme em Portugal e me tornou alguém por lá, o que me deixa muito satisfeita, Portugal e o Brasil deviam ter um intercâmbio literário muito maior do que têm. No mais, tudo é uma grande incógnita, as coisas nesse meio funcionam de um jeito muito doido e não dá para planejar carreira como um funcionário público. Pessoalmente, eu encaro qualquer boa-nova como um lucro inesperado. Sem grandes expectativas tudo é muito mais tranqüilo.
Em entrevista a Edney Silvestre (Os contestadores, W11 Editores), Norman Mailer disse que "neste século o escritor está numa posição análoga à do ecologista, que olha em volta, vê o mundo sendo destruído diante dos seus olhos e se sente impotente". Você concorda com isso ou acha que o escritor ainda tem forças para mudar as coisas nesta balbúrdia atual?
O escritor tem forças, como o ecologista. Sentimo-nos impotentes quando nos imputamos responsabilidades ou tarefas vastas demais. A pretensão mata, esteriliza, imobiliza. Dar bom-dia às pessoas já é uma excelente maneira de começar a mudar o mundo. Com relação ao livro, é claro que seu estatuto mudou, como diagnosticou tão bem o Peter Sloterdijk no seu Regras para o parque humano, mas isso nos dá uma liberdade fantástica. Podemos ser menos ambiciosos e mais realistas. Os livros já não têm mais a função de educar ninguém. Que ótimo, então os escritores não precisam educar ninguém! Quando sei que um leitor no planeta inteiro sensibilizou-se com alguma coisa que eu escrevi, foi levado a alguma reflexão, compartilhou de alguma emoção, isto já é para mim uma espécie de missão cumprida.
Quem é o seu leitor ideal? E qual é a sensação de estar escrevendo para tão poucos, se compararmos o número de leitores (tiragem dos livros) ao da população brasileira?
Honestamente, não costumo pensar muito nisso. Se eu tiver cinco leitores ou cinco milhões, isso independe do que escrevo, e tem muito mais a ver com outras contingências, externas a mim. Tem autor brasileiro que escreve livro com receita de best seller e não vira best seller. Tem autor brasileiro que escreve verdadeiras porcarias e meio mundo lê. Tem autor brasileiro de primeira linha que não consegue esgotar uma edição. Então procuro não me preocupar e fazer o que sei fazer, sobretudo o que gosto de fazer. Infelizmente, o problema do mercado minúsculo não afeta só aos escritores. Muitos artistas plásticos e músicos de orquestra precisam sair do país para ter sua arte ocupando o lugar que merece. Essa é uma questão política. Uma questão de mudar a cara do país. Big Brothers são inofensivos, podemos até tê-los, se tivermos também a contrapartida. Mas é preciso querer.
Qual escritor você colocaria diante de Deus para tentar redimir os pecados de toda a humanidade?
Colocaria Borges. Deus não conseguiria ler Borges impunemente.
Como é o seu método criativo?
É a falta de método. Escrevo quando dá e como dá, no meu escritório que fica na sala de uma casa onde moram também o marido escritor, o filho de cinco anos e a cadela de cinco meses. Deu para imaginar, não? Curto uma bagunça saudável e hoje sei que a melhor coisa para mim é ter paciência com o que escrevo, deixar decantar, amadurecer, escrever durante três dias, depois passar seis sem nem olhar para o que fiz, daí retomar... isso foi uma grande conquista, até porque o meu perfil sempre foi o da típica obsessiva.
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