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NA FONTE POÉTICA DE BANDEIRA
Augusto Pinheiro

Publicado no jornal Diário de Pernambuco, em 21.01.2004

Escritora que faturou Prêmio José Saramago lança novo livro inspirado na simplicidade do poeta pernambucano

Manuel Bandeira foi a inspiração para a carioca Adriana Lisboa escrever seu último romance, Um beijo de colombina (editora Rocco) - o título é um verso do poema Pierrot Branco, do autor pernambucano. Mas não apenas para ela. Teresa, personagem do romance, também escritora, antes de desaparecer no mar, preparava um livro inspirado nos versos de Bandeira.

É assim, misturando referências autobiográficas com ficção, em busca de uma prosa poética simples, que Adriana desenrola sua trama, narrada pelo namorado de Teresa, um professor de latim que procura reencontrar seu lugar no mundo após o desaparecimento da parceira.

Os traços da vida da autora estão mais presentes exatamente no personagem-narrador. "As memórias dele são minhas, o desajuste que ele sente, o lugar onde ele mora no Rio é parecido com o lugar onde eu morava," conta a atual residente de Teresópolis, na região serrana do Estado.

Apesar disso, há outras semelhanças entre Adriana e Teresa, como os prêmios que ambas ganharam. Teresa, no livro, é uma revelação literária. Adriana recebeu, em outubro passado, o prestigiado José Saramago, prêmio português da Fundação Círculo de Leitores que, de dois em dois anos, elege a melhor obra de ficção em língua portuguesa de um autor com menos de 35 anos.

Primeira brasileira agraciada com o prêmio, por seu segundo romance, Sinfonia em branco, Adriana recebeu o cheque de 25 mil euros das mãos do próprio Saramago.

"Na ocasião ele me falou que eu deveria tentar ser poética sem ser tão lírica, me derramar menos na poesia," conta Adriana sobre o momento com o ídolo. "Na verdade, foi um conselho a posteriori, pois Um beijo de colombina já estava pronto e apontava para esse caminho."

A busca pela simplicidade, aliás, foi o que levou Adriana a Manuel Bandeira, tema de estudo de seu mestrado na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), cuja "dissertação" foi exatamente o romance. "Escolhi trabalhar com Bandeira porque ele é o poeta da simplicidade, uma escola da qual preciso muito: uma escrita enxuta, sem perder a poesia, voltada para as pequenas coisas," diz.

O Prêmio José Saramago, diz, valeu para lhe abrir as portas do mercado português. Por causa dele, seu segundo romance foi publicado na terra de Camões, pela editora Temas e Debates. "Foi bom porque em Portugal há muitos leitores. Infelizmente aqui no Brasil ainda se lê pouco," diz.

Atualmente, Adriana faz seu doutorado na Uerj, sobre os haicais do poeta japonês Bashô (1644-1694) - cujas traduções feitas por Bandeira estão em Um beijo de colombina - , que também vai resultar num romance. "A idéia surgiu um pouco por causa do Bandeira, mas também a partir do meu interesse pela filosofia zen e pela possibilidade da imagem poética justa, nem rasteira, nem muito lírica," diz.

METALINGUAGEM

O livro dentro do livro que o personagem-narrador sem nome começa a escrever após perder a namorada, Teresa, que desapareceu no mar, é o mesmo que o leitor está lendo, o da autora Adriana Lisboa, que se inspirou nos poemas de Manuel Bandeira, mesmo projeto que tinha Teresa, que foi retomado pelo namorado-narrador, que pode não ser nada disso.

É nessa intrincada e bem costurada rede de personagens-autor-narrador que Adriana desenvolve uma história contundente mas delicada, de dor, perda e poesia, de devaneios mundanos e nem tanto, de buscar a si mesmo e um lugar no mundo.

O narrador, um professor de latim de 33 anos, tenta retomar sua vida por meio da escrita, escrita que era de Teresa, em meio a lembranças do relacionamento que durou oito meses, ao reencontro com a ex-namorada Marisa, a poemas de Bandeira e vai-e-vens na memória.

O texto de Adriana Lisboa flui como as águas do mar de Mangaratiba, onde a escritora Teresa desapareceu, sem travessões ou aspas para os diálogos, muitas vezes emendados na própria narrativa, como fazia Clarice Lispector. Nas reflexões do narrador, o texto poético de Adriana surge entre metáforas e e imagens de objetos e lugares, entre os versos de Bandeira.

O Rio de Janeiro, que é cenário do romance, não é aquele de Ipanema ou Copacabana. Os personagens circulam por Vila Isabel, Cinelândia e Lapa, ali na rua onde viveu Manuel Bandeira.

Em meio às indagações colocadas no livro, em um exercício de metalinguagem ou auto-reflexão, estão aquelas relacionadas ao fazer do escritor. Que valor têm os prêmios literários? De que valem os holofotes? Por que e para que escrever? Perguntas sutilmente respondidas na própria história, nas entrelinhas, no não-dito, mas que deixam pelo menos uma certeza: Adriana tem prazer no que faz e passa o mesmo prazer para o leitor.

Augusto Pinheiro é jornalista
da equipe do Diário de Pernambuco.



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