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OS SILÊNCIOS DA SINFONIA BRANCA
Victor L. da Rosa

Publicada no caderno Variedades culturais do Diário Catarinense em 14.05.2005

Em 1978, Roland Barthes ministra um curso no Collège de France intitulado O neutro. Nesse curso, Barthes define o neutro como aquilo que burla (que engana) o paradigma e seu binarismo implacável - ne-uter: nem um, nem outro. Em outras palavras: diante da arrogância (palavra sua) do sentido e da verdade do discurso, o teórico propõe o não-sentido e um discurso que possibilite a trapaça à verdade.

Barthes, então, enumera 23 figuras - que ele chama de figuras do neutro e do anti-neutro. Dentre essas 23 figuras, estão: o silêncio, a delicadeza, o sono, a fadiga e a cor (ou, sua ausência: o incolor). Tais figuras, para o teórico, fazem o neutro aparecer - ou uma imagem mais prudente: fazem o neutro brilhar, cintilar.

Penso ser esse o lugar do romance Sinfonia em branco, da escritora carioca Adriana Lisboa. Melhor: o lugar não somente do romance, mas também da voz que fala no romance - uma voz que deseja o insustentável, a suspensão, a leveza; uma voz que fala da estupidez com uma poeticidade quieta e conformada (mas uma poeticidade também feroz e violenta, que, por vezes, me fez fechar o livro e olhar a parede vazia durante segundos, minutos até); uma voz, por fim, que não tem um lugar, pois em nenhum momento descubro que voz é essa, de onde vem, de onde fala, por que fala.

Essa voz, acima de tudo, por vezes, não fala: ela se cala, silencia. Muitas palavras, em Sinfonia em branco, não são ditas, são omitidas do leitor. Recorto um fragmento que me fascina: "Clarice sentiu mais uma vez com as pontas dos polegares as duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho. E sorriu um sorriso involuntário e triste, um sorriso sem mistérios, ao pensar que afinal acabara sobrevivendo a si mesma" (p. 23).

Por um princípio de delicadeza, a voz não diz algo. Mas esse algo está aí: implícito - o dito do não-dito. Há certa relação, portanto, entre o silêncio e a delicadeza. Ou seja, a delicadeza se configura, justamente, a partir desse não-dizer, a partir da recusa à fala sistemática, à fala franca e explícita. Penso numa frase do francês Léon Bloy, lida em algum livro de Barthes: "Só é perfeitamente belo o que é invisível [...]".

Mas esse silêncio também está relacionado com uma impossibilidade. Há algo no fragmento citado que não pode ser dito, por uma insuficiência da palavra. Uma melancolia (palavra insuficiente) que não pode ser descrita, não pode ser presentificada, representada. Logo, o silêncio surge como possibilidade de fazer aparecer o que não pode ser mostrado. Ou, como diz a voz narrativa: "[...] enxergar todas as palavras que não são ditas" (p.48). Paradoxalmente, o calar surge como única forma de dizer.

Não é necessário descrever o estado de espírito de Clarice - não é necessário explicar. "As duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho", já diz absolutamente tudo. Ao invés de descrição, discrição - o discreto é sempre delicado, é sempre brando, é sempre perfeitamente belo.

É interessante perceber que o silêncio também está disseminado no discurso dos personagens. Um silêncio, no entanto, distinto - um silenciamento. Um silêncio que aparece na falta de diálogo de uma família do interior do Rio de Janeiro e que se estende pelas vidas das irmãs, e protagonistas, Clarice e Maria Inês. Um silêncio doloroso. São os "assuntos proibidos" que seus pais lhes impõem. Diz Maria Inês a seu primo, quando ainda eram crianças: "Presta atenção, não vá dizer ao meu pai que andamos por aqui, é proibido" (p. 15).

Essa falta, essa ausência de algo, esse buraco, perpassa as 222 páginas do romance de diferentes formas, a partir de diferentes metáforas. Já nas primeiras frases do livro, a experiência sugerida é a de um homem, Tomás, esperando alguém, uma mulher. "Ainda havia algum tempo antes que ela chegasse" (p. 9). À experiência da espera (por si só, uma experiência vazia) se acrescenta uma imagem do lugar, parada e imóvel: "Tudo estava quieto, ou quase quieto, e mole, inchado de sono" (p. 9). Após, Tomás lembra de uma moça vestida de branco, um branco virginal. As galinhas, às vezes, cantam, e Tomás escuta sem ouvir. Aos seus pés, um cachorro preguiçoso dorme cansado de tanto dormir.

A cena se configura, portanto, a partir de figuras neutras, como a do sono, da fadiga e do branco. Uma cena onde o corpo repousa, e permanece imóvel: esvaziamento da ação. Uma cena quase suspensa do concreto: signos flutuantes, sem referentes. Uma cena onde o neutro cintila através de uma não-vontade, através da ausência de cor, através de uma não-percepção dos sons e, por fim, de uma condição do corpo.

Também as alusões à música e à pintura, tão importantes e constantes no livro, funcionam como metáforas dessa falta, dessa ausência de algo, desse buraco de sentido. Os "retratos opacos", as "abstrações sem sentido e sem desejo de constituir um sentido" que Tomás pinta, sem maiores pretensões estéticas, aparecem quase como referência direta ao vazio. "Naturezas-mortas mortas" (p. 23). Uma mediocridade que Tomás persegue com o mesmo desejo que perseguiu, em algum momento anterior de sua vida, um "talento superior". Uma mediocridade que nasce com a perda de uma mulher, com a falta de um amor. Um vazio..

A música, desde o título do romance, também sugere uma abstração branca, uma abstração abstrata. Uma materialidade pura da sinfonia e do trio de Brahms para trompa, violino e piano. O estar-ali da nota musical que nunca remete a algo exterior, a um sentido exterior - o estar-ali da nota musical que só remete a ela mesma. .

Essas são, muito provavelmente, somente algumas das formas do neutro, das formas do silêncio de Sinfonia em branco. Um silêncio que ora se mostra brando e delicado, suave e sereno, ora se mostra profundamente doloroso. Mas um silêncio que se mostra, principalmente, prazeroso, pois se o prazer emerge no perfeitamente belo, emerge também na falta, na ausência e na impossibilidade. O prazer da poesia que emerge, o silêncio da poesia, no instante em que o livro se fecha.

Victor L. da Rosa é bacharelando em Letras pela UFSC.




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