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POESIA FEITA DE RIMAS E RENDAS
Mànya Millen
Publicado no jornal O Globo - Caderno Prosa & Verso em 07.05.2005
A escritora Adriana Lisboa, que em 2003 recebeu em Portugal o Prêmio Literário José Saramago por seu romance Sinfonia em branco, decidiu estrear na área da literatura infantil com outra estréia: fazendo poesia. Autora de romances e contos, a carioca Adriana foi remexer no baú de lembranças infantis para compor os graciosos versos de Língua de trapos, sobre uma boneca de pano com olhinhos de botão que passa o dia calada mas à noite solta o verbo recheado de palavras que se assemelham aos grafismos de sua língua feita de retalhos. Essa espécie de Emília - quem um dia não quis ter uma boneca igualzinha à sapeca companheira de Narizinho? - mais bem-comportada conversa na linguagem das suas texturas: "Tem hora em que falam as bolinhas:/ palavras redondas, gorduchas, polpudas,/ palavras-bola, tipo: onda, melão, barco/ ronda, marola, arco".
A língua de trapos da bonequinha ganha, por conta dessa doçura, um sentido bem diverso daquele que se tornou conhecido popularmente, o de gente fofoqueira ou que não sabe falar. Cheia de rendinhas românticas, de retalhos brilhantes com lembranças de carnaval, de panos importados com sotaque ("E o escocês?/ É pano estrangeiro,/ diferente do resto./ Fala esquisito,/ mole e enrolado, com gaita de fole,/ trompa, flauta, viela e apito"), a personagem ganha vida no preciso trabalho do ilustrador Rui de Oliveira. Misturando desenhos e colagem, ele dá à boneca a mesma textura suave que ela ganhou dos versos de Adriana.
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