 |
|
Adriana Lisboa lança romance inspirado nos diários do poeta Bashô e ambientado no Japão
Publicada no suplemento Idéias do Jornal do Brasil em 21.08.2007.
Mesmo com toda delicadeza – o andar de bailarina, o falar
baixinho, o gesticular quase nada – Adriana Lisboa se sentiu
áspera ao visitar o Japão. Nas ruas de Kyoto – onde os habitantes
“pareciam tomar cuidado para não arranhar o mundo”– cada
gesto prosaico lembrava-lhe uma reverência. O estranhamento
cultural de um brasileiro no Oriente, a necessidade do
viajar em busca de si mesmo e a beleza contemplativa dos haicais
de Bashô interceptam-se como dobras de origami no recém-
lançado Rakushisha.
Rakushisha – ou a Cabana dos Caquis Caídos – foi a casa de
Kyorai, um discípulo de Bashô a quem o poeta visitou algumas
vezes quando em Kyoto. Segundo a lenda, uma tempestade
acabou com a plantação de frutas – os ovos de dragão vermelho
– um dia antes do acertado para a venda. O Diário de Saga é um
dos relatos menos conhecidos do poeta japonês e, por isso, o
escolhido por Adriana como ponto de partida para o romance,
que primeiro existiu como tese de doutorado. A autora estudou
japonês durante três anos, além de esmiuçar livros sobre a
cultura e a formação literária nipônica. Pela primeira vez ambientando
um romance fora do Rio, Adriana sentiu que precisava
conhecer o Japão.
– Bashô era um escritor viajante, andava quilômetros a pé
porque tinha muito clara a idéia de que o ponto de chegada era
o próprio caminho, que o descolamento é o destino da viagem –
explica Adriana. – Para Celina e Haruki, a viagem é também
uma tentativa de cura.
Antes de buscarem a cura nos jardins e templos zens em
Kyoto, Celina e Haruki, protagonistas do livro, encontram-se
no metrô carioca. Celina sobrevive a uma forte perda, isolada
no pequeno apartamento do Grajaú enquanto tece bolsas artesanais
para sobreviver. Haruki é um ilustrador, que foge da
realidade transcrevendo romances em traços. Descendente
de japoneses, mas sem conhecer suas origens, resolve visitar
Kyoto ao receber a missão de ilustrar o Diário de Bashô. Co-
nhece Celina duas semanas antes da partida e – burlando o
“Nunca mais se ver, nunca mais telefonar” se oferecendo o
tempo todo – convida-a para um café. Ao café em Botafogo, sucedem-
se encontros até que os dois estranhos embarcam rumo
ao Japão. Seguindo os passos de Bashô.
A história de Rakushisha é conduzida por um narrador
onisciente, alternando-se com trechos dos diários de Bashô e
de Celina. A forma do relato pessoal – que já fora escolhida por
Adriana em Os fios da memória – ganha uma nova dimensão, ao
acompanhar trechos do único diário de Bashô, em que suas impressões
aparecem datadas em seqüência cronológica. Os
fragmentos de texto ganham ritmo mais lento – “um pé depois
de outro” – enunciando a influência nipônica no que já se pode
identificar como um estilo Adriana Lisboa – escrita intimista,
ensaísmo filosófico e a tentativa de extrair da prosa o máximo
de poesia.
– Às vezes, temos a impressão de que a arte japonesa está
bem próxima do esqueleto, do essencial – diz Adriana. – Minha
escrita está longe disso, mas houve, sem dúvida, a busca por
um ritmo diferente e também uma concisão na emissão de opiniões:
o narrador fala menos do que nos meus livros anteriores,
e o final da história é mais aberto.
Leitora assídua de poetas contemporâneos como
Carlito Azevedo e Eucanaã Ferraz, Adriana abre o livro
com uma citação do famoso haicai de Paulo Leminski –
“Amar é um elo, entre o azul e o amarelo”. Em Um beijo
de Colombina, – que homenageia a Manuel Bandeira – a
escritora havia passado de leve pelos pequenos poemas
japoneses traduzidos pelo pernambucano. Ao desvendar
a obra de Bashô, confirmou a recolocação do gênero,
visto pelos poetas concretos de uma maneira um pouco
distorcida:
– Os concretistas viam o haicai como a arte da síntese,
quando, na verdade, eles não resumem nada. São poemas que
dizem o essencial. Não têm a pretensão de chamar atenção para
a própria forma, como entendia Haroldo de Campos.
Com residência fixa em Denver, nos Estados Unidos,
Adriana acaba de voltar de Paris – como diria Bashô, exercendo
o único bem humano, a capacidade de locomoção – onde
passou um mês em “trabalho de campo” para o projeto Amores
Expressos (em que 16 autores viajam a capitais do planeta
com a missão de voltar com uma história de amor).
Em Denver, a escritora pesquisa a poesia indígena americana
para escrever um livro que fechará a trilogia dos poetas,
possivelmente inspirado em Joy Harjo, poeta e saxofonista,
ainda pouco conhecida no Brasil. Mês que vem, embarcará para
a Colômbia, onde vai participar do projeto Bogotá 39, escolhida
que foi como um dos 39 narradores latino-americanos
com menos de 39 anos mais importantes do momento. A idéia
é debater o futuro da prosa no continente.
– De repente, me dei conta de que meus melhores amigos
estavam espalhados pelo mundo, em Tóquio, Luanda, Paris... –
diz Adriana. – E percebi que abrir mão da segurança da casa e
da língua materna é extremamente criativo. Seja pela delicadeza
do gesto de viajar para ver a lua nascendo em outro lugar,
como Bashô. Ou ao aceitar o conceito do filósofo Vilém Flusser:
“O homem é estrangeiro no mundo”.
|
|
|
|
|