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Sob os pés, alçapões
Publicada no jornal O Povo em 31.05.2008.
Rakushisha, romance de Adriana Lisboa, trata de um Japão feito de sustos. Nas de Kyoto, os personagens intuirão um recomeço possível
Rakushisha (Rocco, 2007) é um livro estranho. Porque desautomatiza os planos e metas cotidianos. Porque desintegra parte do repertório de atos pertencentes à esfera do banal, ou seja, uma fração daquilo visto e tocado ao longo desse período de 24 horas a que se convencionou chamar "Dia", útil ou não. Põe o sofá, assentado costumeiramente na sala, no fundo do quintal ou na garagem do condomínio. Quando chegam os convidados e deparam com ele num desvão da casa pouco freqüentado, o susto é inevitável.
Esse é um dos elementos presentes no novo livro da belíssima Adriana Lisboa: o susto. Mesmo coberto com uma pátina de leveza ou docemente manipulado pelas mãos dessa carioca, autora de Um beijo de Colombina e Pequenas narrativas, todos pela editora Rocco. Em Rakushisha, as palavras arrumam-se em frases, estas em orações que, por sua vez, compõem períodos e parágrafos que terminam por conduzir o leitor a um labirinto de sentidos e personagens. Que apontam, reconstituindo uma velha ponte aérea, para o vínculo entre oriente e ocidente.
Em primeiro plano, a narrativa de Lisboa tem um referencial aparentemente sólido. Há tempo, espaço e personagens identificáveis. Nela, o acaso faz Celina - provável psicóloga, costureira e bordadeira blasé e mãe de Alice - e Haruki - ilustrador brasileiro filho de japoneses, homem de meia-idade envolvo em dramas existenciais -, ambos residentes no Rio de Janeiro atual, colidirem durante uma viagem de metrô. Prestes a descerem na estação de Botafogo, Celina interessa-se pela constelação de símbolos que saltam de um livro ininteligível até mesmo para Haruki, que o apanhara na biblioteca para ler as figuras. O livro é o original de um dos diários do poeta japonês Matsuo Basho, que viveu no século XVII. Por indicação da tradutora Yokiko Sakade, brasileira residente no Japão e responsável pela versão em português do diário de Basho, Haruki é chamado para ilustrar o volume, que se chamará Saga Nikki, Diário de Saga. Mesmo sem falar japonês ou demonstrar qualquer interesse pela cultura do país de onde os seus pais fugiram, há algumas dezenas de anos.
A partir desse encontro inesperado entre Celina e Haruki conhecem-se os personagens. Em doses homeopáticas, os lances vão se acumulando. Descobre-se que Celina fora casada e amara Marco e que Haruki envolvera-se com outra mulher a quem ainda parece estar fundamentalmente atado. Daí para frente, é com a autora.
Rakushisha flutua entre o Japão e o Brasil. Precisamente, entre Kyoto e o Rio de Janeiro. Mas a oscilação não é apenas espacial. Ela também é temporal. Ora acompanham-se as peripécias do desaprumado casal, ora assiste-se ao vídeo das suas vidas afetivas. A narrativa estrutura-se segundo os pontos-de-vista de Haruki, que conta os seus dia em tom de conversa, e Celina, que escreve, à semelhança de Matsuo Basho, um diário. Um terceiro, do próprio narrador, sedimenta os fiapos e as confissões e o roteiro sentimental de ambos. Entre Celina, Haruki e o narrador, lêem-se trechos do diário do poeta japonês. De Rakushisha, local onde esteve hospedado nos seus últimos anos de vida e que significa a Cabana dos Caquis Caídos, Basho envia haikais desconcertantes que podem ou não fazer algum sentido quando confrontados com o fio da história narrada. O resultado é intrincado, polifônico e fragmentário.
Há outro aspecto importante do livro de Adriana Lisboa: o caráter visceral das viagens. No diário de Celina, lê-se: não há nada mais precioso do que os nossos pés e o chão debaixo deles. Para ela, "a viagem é sempre pela viagem em si". Não há sentido exceto o que implica o ato em si mesmo. Frases como essa ou variações são vistas a cada vinte ou trinta páginas. E aqui topamos com outro procedimento comum no livro: a repetição. Prova disso é a recorrência da conjunção condicional "se". O incerto por trás da palavra pavimenta as mais de cem páginas de Rakushisha. (Henrique Araújo, Especial para O POVO)
SERVIÇO:
Rakushisha, de Adriana Lisboa. Editora Rocco, 128 páginas. Preço sugerido: R$ 24.
E-MAIS
"Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter em mente pequenas metas: primeiro só a esquina. Aquele sinal com a faixa de pedestres e o homem esperando para atravessar com um guarda-chuva transparente e um cachorro de capa amarela.
(...) Estive reaprendendo a andar. Estou reaprendendo a andar. Depois da tempestade, da era glacial, da grande seca, a gente pode usar a imagem que quiser, ninguém vai se importar muito, afinal quem somos nós se não menos do que anônimos aqui. Abriu-se esta porta. Agora não dá tempo de te contar como aconteceu. E ainda não sei se andar equivale a lembrar, se equivale a esquecer, e qual das duas coisas é o meu remédio, o veneno que tece a morte e a droga que traz a cura. Se vim para lembrar - se vim para esquecer. Se vim para morrer ou para me vacinar. Talvez eu descubra. Talvez nunca seja possível descobrir, desvelar, levantar o toldo, remover qualquer traço de ilusão da ilusão de caminhar. Seja como for. É só colocar um pé depois do outro."
TRECHO
Para a composição de Rakushisha, Adriana Lisboa recebeu uma subvenção da Fundação Japão (www.fjsp.org.br) e viajou a Kyoto, cidade onde viveu Mukai Kyorai, em cuja residência o poeta Matsuo Basho passou parte dos seus últimos dias, ainda no século XVII. Lá, Lisboa permaneceu um mês antes de retornar ao Brasil.
Em junho, a autora lança Contos populares japoneses, também pela Rocco. O livro reúne seis histórias escritas com base no cancioneiro nipônico. As narrativas tratam, portanto, de temáticas como saudade, gratidão e muitas outras.
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