RaKushisha soa como um "já cochicho" em meu ouvido de criança do norte do Paraná, me remete a cochichar. Mas essa palavra japonesa que significa cabana dos caquis caídos e dá nome ao romance de Adriana Lisboa, refere-se ao local onde Matsuo Bashô escreveu seu último diário: o Diário de Saga.
Visitei, no livro, a Colônia Esperança* de minha infância. Agora desejo percorrer o Caminho do Filósofo com Celina, em Kyoto, ou ir a Tókio com Haruki.
Harukii é ilustrador e viaja ao Japão para pesquisar a vida de Bashô a fim de ilustrar uma tradução do Diário de Saga. Seu nome faz referência a Haruki MuraKami, o escritor que gosta de correr como Adriana? O livro começa falando do andar, e do andar, que, num ritmo mais acelerado, pode ser: correr... Ou parar? O que teria acontecido à Celina para que viajasse ao Japão com Haruki, a quem acabara de conhecer?
Celina escreve um diário dessa viagem, que é intercalado com a tradução do diário de Bashô, e com a voz de um narrador. A alusão que a autora faz às fugas de Bach "em que uma voz perseguia a outra, e os caminhos pareciam ganhar autonomia, mas teriam de chegar a um acorde final" (pág. 54) me instiga supor este mesmo movimento no formato do romance. Como se a história de Celina fosse um livro à parte que lemos durante a viagem ao Japão.
Algumas palavras em japonês permeiam o texto. Uma delas me chama a atenção por sua semelhança com o português: puresentu - para presente - que surpresa!
A prosa de Adriana é delicada, em voz baixa, um quase cochicho que ouvimos, por acaso, sob a chuva miúda que cai no Rio, em Kyoto e em Tóquio.
Irassahaimase Rakushisha!
*Comunidade nipo-brasileira situada nos arredores da cidade de Arapongas, norte do Paraná.