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BUSCA DA SIMPLICIDADE NOS PEQUENOS DETALHES

Publicada por Nilo da Silva Lima no caderno Prosa e Verso do jornal O Globo em 26.07.2008.

Em livro para jovens, Adriana Lisboa reafirma seu interesse por uma escrita construída em torno da exatidão e da leveza

Em "O coração às vezes pára de bater", uma das narrativas que compõem a série "Cidades Visíveis – Ficções nas cidades que vivemos", mais uma vez Adriana Lisboa demonstra que o seu processo de criação vai no sentido de atingir a exatidão da simplicidade. No entanto, há que se ressaltar que esta simplicidade em Adriana é sempre da ordem do substantivo – o simples – e não uma adjetivação inconsistente. Por isso, a simplicidade assim entendida supõe um projeto em que se distinguem pelo menos três níveis de apreensão.

Um processo ininterrupto de leitura do mundo, do ser humano e do patrimônio cultural construído pelo homem na sua tentativa histórica de compreensão de si e do mundo e numa reconstituição deste mundo por força desta sua ação – o que traz para o texto a multiplicidade de olhares e vozes que de fato forma este território cultural por onde transita e, por vezes habita a escrita de Adriana.

Na vizinhança deste processo, o da reescrita como uma demanda, não por um núcleo exclusivo, mas pela rede de conexões da simplicidade sempre em andamento – velocidade, enfim – numa espécie de desencadeamento de uma série de desdobramentos do tempo, da narrativa, da escrita, da linguagem, da cidade, do nada dentre outros.

O terceiro nível é o de uma opção preferencial pelas pequenas pevides, como dizia Manuel Bandeira. Ou seja, a escrita de Adriana Lisboa mantém esta opção elo simples, numa reiterada abdicação, por exemplo, dos grandes temas, das orgias literárias, em favor de uma leitura do cotidiano das cidades, vistas da janela de um ônibus emperrado nas complicações diárias do trânsito, dos sentimentos comuns das pessoas – a cultura simples que resiste nos contos populares sobreviventes na oralidade. Todos estes elementos escrevem linha a alinha a consistência da simplicidade da escrita de Adriana.

A simplicidade, portanto, não é um estágio inicial de escrita, mas processo que implica, sobretudo ação ininterrupta, coragem e ousadia de escrever e reescrever ciente de que se "a literatura é a confissão de que a vida só não basta", por outro lado, há que se ater imprescindivelmente ao exercício de compreensão de uma escrita que, na construção da leveza e da exatidão de sua simplicidade, crie um território propício ao olhar e à voz do peso que constitui a história do homem e a história da formação de seu patrimônio cultural como tentativa de leitura de si.

"O coração às vezes pára de bater" é o que se pode chamar de um texto enxuto. Trata-se de cartografia muito peculiar da cidade visível que, ao mesmo tempo, sugere aos sentidos os desdobramentos e os labirintos da cidade invisível lida, ouvida e experimentada a partir da brevidade de uma trajetória. Ao estabelecer uma relação diferente com o mundo, com o tempo, com a velocidade, com as superfícies, esta trajetória traz para o texto a consistência dos questionamentos de um garoto que descobre nela o território da fundação da vida que poderia ser, mas que não é.

Não há nele espaço para os excessos, nem os da escrita, nem os do olhar ou os das vozes que por ele transitam. Nada falta e nada sobra. Há uma medida certa. E, quando se percebe, às vezes o coração pára mesmo de bater, porque mais do que apenas terminar a leitura do livro, quase que sentimos de fato pesar nas mãos a leveza daquele skate que o garoto teria deixado com a gente, depois de nos ter inscrito aos meandros de sua vida simples de garoto de quinze anos que procura saber a vida em meio a seus problemas familiares. O relacionamento com os pais e a irmã que quase desconhece, questionamentos quanto à projeção social, aos valores da vida, destas pequenas coisas do cotidiano de qualquer pessoa, mas que transita da leveza de seu skate por estas vizinhanças territoriais, como se realmente imaginasse e construísse uma mundo transterritorial.

Assim Adriana Lisboa mostra que escrever lhe é de fato uma necessidade vital e que a escrita acena sempre como este skate, criando um novo caminho pela cidade, pelo ser humano e pela literatura, entendida como este território em que o coração pode parar de bater para que sejam ouvidas outras vozes e sejam vistos outros ângulos para os quais o olhar pleno às vezes cega.

Nilo da Silva Lima é Mestre em Teoria da Literatura UFMG.




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