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TRÊS INVENÇÕES DO JAPÃO
Miguel Conde

Publicada no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo em 21.08.2007.

Os escritores Adriana Lisboa, Bernardo Carvalho e João Paulo Cuenca tomam o país como cenário e inspiração para seus novos livros

Quando o crítico palestino Edward Said escreveu que o Oriente era uma invenção do Ocidente, ele se referia principalmente ao modo como os europeus pensavam os povos árabes. Seu diagnóstico, no entanto, é aplicável também às representações ocidentais de países mais a leste da Europa. A idéia de Oriente, dizia Said, é uma fabulação que joga culturas distintas na vala comum do exotismo, e cria uma espécie de espelho invertido que a Europa olha para ver o que ela própria não é. Se isso vale para a relação do Ocidente com o Oriente Médio, é ainda mais verdadeiro no caso do chamado Oriente Distante, e do Japão em particular.

A idéia de uma diferença radical, que tornaria a cultura japonesa quase incompreensível, já motivou diversas tentativas de "decifração". Das mais abrangentes, como o clássico "O crisântemo e a espada", da antropóloga Ruth Benedict, às assumidamente fragmentárias, como "O império dos signos", do francês Roland Barthes. No Brasil, apesar da imensa colônia japonesa em São Paulo, a aproximação cultural com o Japão tem sido episódica, dependente de iniciativas individuais como as de Paulo Leminski ou Haroldo de Campos. Mas o número de autores japoneses à disposição do leitor brasileiro aumentou nos últimos anos, em boa parte graças à editora Estação Liberdade, que já publicou aqui autores como Haruki Murakami, Yasunari Kawabata e Junichiro Tanizaki.

Agora, três autores brasileiros tomaram o país como inspiração para seus novos livros: Bernardo Carvalho, Adriana Lisboa e João Paulo Cuenca. "O sol se põe em São Paulo" (Companhia das Letras), de Carvalho, e o recém-lançado "Rakushisha" (Rocco), de Adriana, são marcados pelo diálogo com as obras de Tanizaki e Bashô, respectivamente. Já Cuenca passou um mês em Tóquio, onde fez as fotos que ilustram essa página, e a partir da experiência prepara um romance, que será publicado como parte do projeto Amores Expressos. São aproximações com motivos diversos. Adriana diz que o interesse por Bashô, mais do que pelo Japão, fez com que ela viajasse para Kyoto e escrevesse seu romance. Para Cuenca, Tóquio é uma obsessão de infância.


'Quero um texto que não precise falar demais'

Influenciada por Bashô, Adriana Lisboa diz que seu novo livro tem afinidades estéticas com haicais do poeta

A escritora Adriana Lisboa levou quatro anos para terminar "Rakushisha" (Rocco), seu novo livro. Foram três anos e meio escrevendo e reescrevendo, até que no ano passado ela foi passar um mês em Kyoto com uma bolsa da Fundação Japão. A viagem fez o livro andar. Na volta, ela mudou tudo e terminou a história em seis meses. O momento decisivo da estada em Kyoto foi sua visita a Rakushisha, a Cabana dos Caquis Caídos, onde o poeta Bashô se hospedou durante uma de suas viagens. Impressionada, ela traduziu do japonês, com ajuda de uma professora, o diário que Bashô escreveu enquanto esteve lá, e incluiu trechos no romance.

Como surgiu seu interesse por Bashô?

ADRIANA LISBOA: Eu já tinha lido umas traduções que o Manuel Bandeira tem do Bashô, até cito um haicai no "Beijo de colombina". Mas o que me pegou mesmo foi uma história que ouvi numa palestra do Denilson Lopes. Ele falava de uma viagem que o Bashô fez para ver a lua nascendo atrás de um templo. Foi esse gesto que me encantou. Fui atrás do diário dessa viagem e resolvi que ia fazer alguma coisa em cima daquilo.

Algo mais, além desse gesto, a levou a escrever o livro?

ADRIANA: A distância, tanto temporal quanto física, de mim para um poeta japonês do século XVII. Em termos estéticos, há uma continuidade de um interesse meu por uma poética da simplicidade, que já vinha desde a época da pesquisa sobre Bandeira e o "Beijo de colombina". O Bashô era um poeta das coisas pequenas, como se fosse um Bandeira avant la lettre. O haicai foi chamado pelos poetas concretos de uma síntese, mas isso depois foi revisto, porque não se trata de síntese, e sim de dizer o essencial. Esse é um desejo que tenho com aquilo que eu faço: um texto que não precise falar demais.

Mas às vezes também parece fácil passar direto por um haicai, não?

ADRIANA: É muito fácil ser uma leitura ligeira. Parece uma coisa gratuita, umas imagens jogadas... So what, né? Mas aí comecei a ler a respeito, o Paulo Franchetti da Unicamp tem estudos maravilhosos. Quando você começa a estudar, surgem coisas que não estavam óbvias a um primeiro olhar. O que não quer dizer também que os poemas não possam ser apreciados sem esse estudo.

Surge o quê, por exemplo?

ADRIANA: O haicai aponta para alguma coisa que nunca está nele. É a sugestão de uma coisa que não está dita. Não é um poema que esgota a imagem. No Ocidente, a gente tem essa tendência a falar demais, como se a palavra pudesse cercar, condensar e prender a imagem. O haicai sugere uma coisa que fica para além do haicai. Sempre tenho essa sensação quando eu leio. É uma pincelada verbal, quase uma caligrafia mesmo. A caligrafia japonesa tem normas muito estritas. Um traço que parece à primeira vista gratuito tem por trás dele um monte de estudos e preceitos. O haicai acompanha isso. Quase uma caligrafia, uma pincelada sob forma de um poema breve, que aponta para alguma coisa quase impossível de ser dita. É como se o haicai respeitasse essa incapacidade da poesia. Assume que é incompleto, que não dá conta. É uma baita lição.

A poesia é uma inspiração importante para você, e seu estilo já foi descrito como prosa poética. O que acha disso?

ADRIANA: Faz sentido. A gente fala muito desse apagamento de fronteiras entre ficção e ensaio, ficção e autobiografia. Um outro apagamento interessante é esse entre poesia a prosa.

Quais foram suas impressões do Japão, e como isso influenciou o livro?

ADRIANA: Em primeiro lugar, não é possível ir ao Japão com uma idéia prévia. É um país que foge totalmente dos rótulos, do clichê. A minha idéia era tentar dar conta de entender a literatura japonesa, a cultura etc. Quanto mais eu estudava, via que não havia a menor condição, nem que fosse um projeto de vida. É uma cultura fechada, hermética, muito diferente. Vi que era impossível, e já que era impossível resolvi aproveitar a dificuldade e tematizar a dificuldade no livro.

Mas a estada em Kyoto foi difícil?

ADRIANA: Foi muito bom ter ido para Kyoto. Encontrei uma cidade acolhedora, um povo super solícito, sempre querendo ajudar. E uma delicadeza... Isso talvez seja um clichê, mas não sei se a gente alcança entender o que é isso no dia-a-dia dos japoneses. É uma coisa tão internalizada, tão parte do que eles são, que a gente invariavelmente se sente desajeitado, excessivo, deselegante, grande demais. E você sempre acha que há um código rolando por trás que você não domina, que você está cometendo gafes o tempo todo. E isso é verdade.

A viagem foi fundamental para escrever o livro?

ADRIANA: Sim. Eu estava há três anos e meio tentando escrever o livro, e depois da viagem voltei, mudei tudo e terminei em seis meses.

O que você encontrou lá que fez o livro andar?

ADRIANA: Encontrei a Cabana dos Caquis Caídos, a Rakushisha, casa de um discípulo onde Bashô se hospedou. Fiquei tão impressionada com o que encontrei que em vez do diário mais célebre do Bashô escolhi usar no livro um outro, que ele escreveu quando esteve lá. Acabei fazendo uma tradução que está entremeada com o romance.

"O haicai aponta para alguma coisa que nunca está nele. É a sugestão de uma coisa que não está dita. Não é um poema que esgota a imagem"


Vidas frágeis em narrativa delicada

Em 'Rakushisha', autora evidencia prazer na manipulação das palavras

Rakushisha, de Adriana Lisboa. Editora Rocco, 132 páginas. R$24

Um sentimento de fragilidade angustia os protagonistas de "Rakushisha", novo livro de Adriana Lisboa. Fragilidade diante de si mesmos, de sentimentos convertidos em obsessões paralisantes, e fragilidade diante do acaso, que afeta suas vidas apesar do que eles possam desejar. A delicadeza, sempre apontada como um atributo central da obra da escritora, aqui parece definir a própria existência dos personagens.

Rakushisha quer dizer Cabana dos Caquis Caídos. É a casa do poeta Mukai Kioray em Saga, um subúrbio de Kyoto. Kioray deu esse nome ao lugar depois que uma tempestade derrubou todos os caquis dos 40 pés que ele tinha plantados no jardim. No ano passado, Adriana Lisboa passou um mês em Kyoto com uma bolsa da Fundação Japão. Ao visitar a casa de Kioray, teve uma espécie de epifania e decidiu incluí-la no livro. Traduziu o diário que Matsuo Bashô manteve durante o período em que se hospedou ali, e entremeou as passagens escritas pelo poeta com sua própria narrativa, travando um diálogo com ele.

A imagem das frutas espatifadas no chão, sua casca fina rompida após a chuva, tem paralelos claros com o destino dos protagonistas de "Rakushisha", Haruki e Celina. Eles se conhecem casualmente no metrô, e depois de algumas horas de conversa ele a convida, impulsivamente, para acompanhá-lo numa viagem ao Japão. Ele tem que ilustrar uma edição brasileira do "Diário de Saga", o diário que Bashô manteve em Rakushisha, e espera que a viagem o ajude a cumprir a tarefa. Após alguma hesitação, Celina aceita o convite. No Japão, os dois acabam se separando e, estrangeiros, vêem-se entregues a si mesmos, à própria solidão.

A escrita de Adriana Lisboa, que já foi definida como uma prosa poética, é sempre atravessada por uma alta tensão emocional. Parece movida por momentos de comoção, de insights e epifanias que as palavras não chegam a expressar por inteiro. A linguagem se torna, assim, uma indicação de algo que está além dela, e que a autora, assim como o leitor, apenas entrevê ocasionalmente. Adriana evita o grandioso e o monumental, mas confere à beleza e à sabedoria que extrai do miúdo um ar de profundidade. Nada é banal em "Rakushisha", ou melhor: a distinção entre banal e extraordinário perde sentido no livro, porque tudo nele parece de alguma maneira significativo.

Uma exploração da insatisfação humana

Ao descrever a chegada de Haruki a uma estação de metrô, a escritora explicita essa diluição de limites, e parece fazer uma advertência irônica a si mesma: "Momentos rápidos e raros. Aquele ali se desfez de repente, no cruzamento com a rua do Catete. Haruki notou que perdia alguma coisa, chegou a olhar para trás automaticamente, para ver se dava com um pedaço de si caído na calçada. Mas era o instante que se desmanchava, colher de sal dentro d'água. E Haruki sacudia a colherinha, desmanchava o instante, porque não tinha como ser diferente, se a gente não mata as epifanias elas nos matam, e atravessava a rua na direção familiar da entrada do metrô."

A escrita de "Rakushisha" é contemplativa, como diz a própria escritora, mas não se esgota numa fruição estetizada do mundo. O estilo de Adriana Lisboa evidencia um grande prazer na manipulação das palavras, como que um olhar da autora sobre a própria escrita, mas o livro é antes de tudo uma exploração da insatisfação, da incompletude que define o ser humano e, claro, o artista. Para Haruki e Celina, a viagem será uma revisitação da própria dor, e uma possibilidade, sempre provisória, de reconciliação: "Refazer um trajeto significa anotar-se no mundo. Deixar uma pegada, uma bandeira. Refazer um trajeto escava a cicatriz da passagem. Não é apenas o descompromisso da mão única". (Miguel Conde)





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