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UM BAILE DE MÁSCARAS
Antonio Carlos Secchin
Publicado na revista Bravo! em fevereiro de 2004.
Na leveza de Um beijo de colombina, Adriana Lisboa vai na contramão do neo-naturalismo na literatura brasileira contemporânea
Adriana Lisboa narra a vida de João, que amava Teresa, que amava a poesia de Bandeira, que é amada por Adriana, que recebeu o prêmio José Saramago 2003. João é professor de latim. Teresa é uma bem sucedida escritora. Adriana Lisboa é autora de Um beijo de colombina, além de dois outros romances. E Manuel Bandeira entra na história como o elo que une todas essas escritas e destinos.
Um beijo de colombina, de certo modo, é uma grande declaração de amor à literatura. Fala-se de poesia, de linguagem, de narração, sem que o tom descamba para o doutrinário ou para uma aridez teórica desvinculada da pulsação da vida. Um literário despojado de excessivas abstrações, colado à poeira miúda (e, ainda assim, problemática) da existência, é o horizonte para o qual aponta a obra de Manuel Bandeira. Sua poesia, sobrevoando a narrativa de Adriana como uma estrela-guia, opera num duplo registro: formalmente, fornece o modelo ou concepção de arte que sustenta a escrita do livro; e, em termos de conteúdo, comparece explicitamente no miolo da trama, abrindo pistas (verdadeiras ou falsas) fundamentais para o desenrolar do enredo.
É arriscado compor uma narrativa a partir de poemas que nomeiam e norteiam todos os capítulos de um livro. Eventualmente menos felizes, em Um beijo de colombina, não são as (muitas) transcrições de versos de Bandeira citados como tais, mas certas apropriações de poemas em contextos em que eles funcionam apenas como enxertos ou pedaços de narrativa expropriados algo forçadamente do lugar de origem. Nesses casos, o que, no território próprio do poema, revelava uma sofisticada espontaneidade, passa revestir-se, no romance, de um teor pesadamente "literário," oposto à singeleza defendida pela arte do poeta. Deriva artificiosa, que pode estimular meros exercícios do tipo "onde estão os versos originais, misturados à palavra do narrador?" Daí advém o risco de se carregar com ostensiva e autodemonstrativa literatura um discurso que pretendia torná-la o mais sutil possível. Outras vezes - como no belo epílogo, que se vale dos trechos da "Maçã" bandeiriana - o encaixe de ambos os discursos se efetua com leveza, sem que um e outro soem como corpos reciprocamente estranhos.
Sim, leveza: um dos atributos da narrativa de Adriana. Avessa ao neo-naturalismo que parece predominar em nossa ficção contemporânea, com doses eqüinas de sexualidade e violência, Adriana, voluntariamente, se engaja na suavidade de um "tom menor." Um delicado tecido verbal sustenta a história de encontros e perdas contabilizados na relação amorosa entre um professor de latim e uma escritora de sucesso. O caso dura oito meses, interrompido pelo trágico e algo estranho afogamento da mulher no mar de Mangaratiba. Pequenos flashes se entremeiam ao fio principal da história, reconstituindo o passado afetivo dos dois protagonistas por meio das figuras de Marisa e Teresa II (assim denominada), ex-namoradas, respectivamente, de João e de Teresa, e que acabam desempenhando papel de relevo na elucidação das circunstâncias que cercaram o desaparecimento da escritura.
Paralelamente a um enredo, em linhas gerais, bastante simples, Adriana Lisboa desenvolve argutas indagações acerca dos limites ou deslimites da palavra, na função não apenas de representar o real, mas talvez na de excedê-lo, graças ao poder da poesia e da metáfora. Como o leitor comprovará no surpreendente capítulo final do livro, Um beijo de colombina é também um gesto de amor endereçado às inúmeras máscaras com que o artista consegue transfigurar de beleza o rosto opaco da realidade.
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